Aline Macedo, geminiana nervosinha e letrista. Vinte anos nem tão bem vividos assim, sonhos carregados nas costas e muitos planos pra por em prática. E vamo que vamo que a vida é curtinha que só.



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21.5.09

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Então a minha mala se fecha. Migrei pro blogspot.


deliriosnasurdina.blogspot.com
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Por Aline Macedo às 5:48 PM



11.5.09

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Consigo reparar, agora que estou humanamente só, e nenhum outro animal sequer se atreveu a estar assim, consigo reparar que tenho o poder de deixar para trás tudo o que já foi o presente. Não significa que eu seja um cara desses rancorosos ou sem coração, veja bem,
não é isso, eu tenho até certo carinho por muitas das coisas que presenciei e vivi e por algumas, essas poucas, confesso, algumas pessoas que, de fato, mudaram alguma faísca aqui dentro, como a Rosana, a Clarice, o Jorge, talvez. É, o Jorge também. Mas agora que de mim
e do meu quarto faço lembranças e paciência, sei que é o futuro a única coisa que me compete. Poderia começar a vida aqui, agora, sozinho, e saberia exatamente o que fazer com ela: nada. tudo. importa somente a mim na solidão torturante desse quarto abafado. Era dia
quando percebi que conta-se três dias que não saio de casa. Abatido, cansado, com dores no cóx e metade do estômago vazio (ou seria metade do estômago cheio?), porém limpo. Ando limpo por aqui, ao contrário dos corredores empoeirados e das prateleiras que nunca chamam a atenção, mesmo com aquela camada grossa de teias de aranhas enlouquecidas que parecem querer mostrar que alguém aqui nessa casa faz alguma coisa, e essas muitas coisas que elas fazem soam como tiros pra mim, tiros de horas e dias e meses, cada vez maiores as teias, os traçados, as traças nos antigos folhetins.


Por Aline Macedo às 8:22 PM



4.5.09

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Que me dizes, ein? Topas? Junta teus trapos com o meu? Posso agora nomear-te minha senhora? é que me dói em dois minutos o coração após tua partida. Hein? Combinados, então?
E ele todo cauteloso, preocupado. Ela distraída, talvez um pouco cansada. Mas não escondia nos olhos dissimulados que estava feliz. Ele meio nervoso ainda, talvez a temperatura um pouco alta, quase febre; podia sentir o pescoço ferver e as mãos quase em fogo, talvez fosse um suor quente que o corpo fabricava para afastar o frio.
Roberto era o nome dele, que sou eu, e Bela era como eu a chamava, embora atendesse por Maria do Carmo, seu nome de batismo.
Minha bela, assim combinamos que seria. Não é que eu não gostasse de Marias, mas ela merecia um nome como Bela.
E o convite foi feito porque ela me afastava dos maus pensamentos. Os abraços e o nariz afundado no cangote. Os ombros como areia onde enterrávamos os focinhos e ficávamos por horas, as patinhas passando pelas costas alheias, que eram quase um corpo só, nós dois ali nos abraçando, minha respiração meio ofegante porque eram tantos pensamentos bons que eu só fazia correr para alcançá-los. Um cachorrinho que eu era, com a língua pra fora pedindo carinho. Mas eu não tinha vergonha porque ela também tinha lá umas loucuras desse tipo. E quando tirava a roupa e ficava toda coberta pelos lençóis caríssimos que eu comprava pensando exatamente nisso, no leve tecido na pele macia da Bela, e ficava encolhidinha escondendo aquelas formas todas de mulher. Eu queria só isso, que ela me abraçasse e ficasse ali comigo deitada na minha cama. Pelada e encolhidinha para sempre, a minha fêmea. E quando isso acontecia, vinham os abraços porque eu sempre tive braços para esquentá-la, sempre pesei o corpo sobre o dela para que entendesse que eu a protegia e que nada de mal lhe poderia acontecer. Topas, Bela?
Ela feliz, mas livre. Juntar os trapos... mas minhas coisas nem são trapos. E nem as suas, meu bem, não fale assim, ela dizia. Desconversava, e eu insistindo e os nossos olhos chorosos porque é assim que se descobre, em conversas bobas e perguntas bobas, é assim que se descobre que é bom como está, que ainda o coração vai doer a cada vez que ela for embora. Talvez nessas viagens ela nunca mais volte e eu passe a comprar lençóis baratos.

Choramos. Nunca mais falamos disso até hoje.
Ela ainda vem, disperdiça seu tempo na minha cama nova, prepara o café e fica, cara, fica pelada encolhidinha, agora deixando os seios à mostra. Não sei se é porque a intimidade nos despe dos pudores ou porque quer que eu saiba que está aberta para mim, como se os seios fossem o coração, sabe como? Como se deixasse transparecer que eu posso aquece-la sempre que fizer frio.
Topas, Bela? dividir comigo tua solidão?
-Não.
E Roberto nunca mais levou ninguém em casa. Roberto não sai de casa. Roberto nem tem mais casa porque não pode se chamar de casa aquilo onde ele vive. Casa, Bela? Faz do Roberto também um homem livre.




Por Aline Macedo às 8:27 AM



26.4.09

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Antes era a expectativa, o despertar do reconhecimento do outro, dos olhos do outro, do cheiro do outro, da pele do outro. Antes a espera alegre e calma, as horas que eram minutos, o café que nunca demorava porque existiam preenchimentos, conversas, gargalhadas, filmes preferidos e pão de queijo. Às vezes cerveja, vodka, rum e drinks, principalmente sex on the beach. Brincavam com nomes, faziam paródias. Teatralmente interpretavam seus personagens preferidos num grande palco que era o quarto não muito iluminado.
Agora o ônibus demora a chegar porque os afazeres são mais importantes. Agora eles ficam dois, três, quatro minutos no silêncio antes que engatem de novo em assuntos corriqueiros. Constrangidos, ambos. Os dois não sabem onde aquilo tudo foi parar, não sabem se eram falsas as coincidências, se os olhos brilhavam meio fosca e toscamente; não sabem em que momento se perdeu a cumplicidade, a vontade, a doce comparação entre os poemas escolhidos do Pessoa. Agora os dois voltam pra casa com a certeza de que não haverá próximo encontro e a angústia permanente: como se perde assim a empatia e o desejo?

Por Aline Macedo às 11:26 PM



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Eu fiquei triste, eu te desculpo. Sim, senhora, você me deixa triste aqui na minha tarde de domingo. Quando eu poderia estar bêbada em algum lugar lindo, olhando o céu cheio de estrelas caindo sob a gente, uns casacos bem grandes porque o frio ia estar praticamente insuportável. E falaríamos coisas do tipo eu só estou aqui porque estou com você, to congelando, você sente isso também? o vento rasgando a pele do casaco, os cabelos todos todos bagunçados, todos os fios, embaraçosamente os abraços e depois a confiança e depois os sorrisos as histórias lembraríamos da billie holiday porque eu ia falar algo como e depois você e depois eu.... eu olharia e ia pensar toda toda ela, de vestidos, correndo até chegar ao ponto de ônibus, correndo na chuva, isso no final, correndo a noite, o guada-chuva aberto, o coração se abrindo, o frio nos ombros molhados. Ela e suas idéias e seus sonhos e sua pressa de ser feliz. E eu sozinha. Ela caminhando sempre. Eu parada olhando, ela e sua vida, eu e a minha vida aqui, as duas distantes. Não são destinos cruzados, não está escrito porra nenhuma em lugar nenhum, não existe vida passada, não tem conexão alguma, esquece! Es-que-ce, esquece, esquece, grita pra si mesmo ainda com os olhos cravados na outra, enquanto vive, enquanto dança, enquanto ama os outros. Eu? eu sozinha. mim comigo.

Por Aline Macedo às 3:26 PM



25.4.09

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Era sempre ela quem escolhia. Acreditava nas teorias de fazer o que o coração mandar. Impulsos. Não controlava as vontades, diremos assim. Sempre decidia. Até que desistiu. Começou a deixar os outros escolherem. No começo achava contraditória a atitude, mas
sempre se dava argumentos bons: acabo me fodendo no final, era o que ela dizia. Agora ela deixa que os outros escolham, que os outros procurem, que os outros tomem as primeiras iniciativas. Mudou a teoria, hoje ela pensa que tem mais é que deixar as pessoas livres pra decidirem por eles mesmos quando vai ser, onde vai ser, o que vão assistir num cineminha de domingo. Isso não deixa de ser uma escolha, afinal. A escolha do silêncio, da espera. Uma nova forma de investida: a espera pela lenta reciprocidade.

Por Aline Macedo às 10:56 PM



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Éramos jovens jovens quando começou aquele fulgor cá dentro de nossos peitos. (Digo pelas duas mesmo. A conheço tão bem quanto conheço meus traços, ou mais, já percorri toda a sua alma e seus pensamentos e seus sonhos e a maioria das angústias do passado. E mesmo que eu não saiba de alguns detalhes, invento. Sobre ela, sei tanto que inventaria certinho como ocorreu.)
Éramos menor de idade, pouquinha, catorze, quinze, disso não passava. Nos conhecemos dia tal que não me lembro, pensei que nem fosse tão importante assim, ela também não imaginou, então não anotei, não marquei, passou despercebido. Fomos despretensiosamente criando uma relação como aquelas de elevador, de portaria, de corredor de prédio e de salas de espera de ginecologista. Oi, bom dia, o dia está quente aqui. Ela dizia: aqui está friozinho, estou de casaco, hoje falei e saiu fumacinha, você já fez isso? Morava em São Paulo, cidade da garoa e eu, cá, Rio de Janeiro, garota carioca, se bem que nunca fui tão carioca assim, visto que minha pele sempre foi amarelada (branca não era, infelizmente, sempre gostei de pele clara) pela falta de praia. Ela dizia: Mas você não vai a praia porque? Praia é tão bom. Nada, nada, pra quem tem sempre não é tão legal assim. Nunca achei tão legal ficar com areia no biquini até a hora de chegar em casa, e ainda descobrir uns grãos atrás da orelha, no emaranhado dos cabelos e no dedinho do pé até antes de dormir. E a nossa convivência em palavras tornava-se habitual, passamos de simples vizinhas que dizem o trivial para as conversas que se fazem com o motorista de ônibus, aquele que você sempre pega pela manhã. Falávamos além do que se podia. Surgiam assuntos, gostos e histórias parecidas. Ah, você também? Ótimo, adoro Ana Carolina. Eu não fumava, nem ela. Eu não bebia, ela também não. Éramos jovens jovens quando começou aquela quase dor cá dentro de nossos peitos. Certo dia, esse guardo na memória porque marcou como se uma menina menstruasse pela primeira vez (se bem que nunca anoto essas coisas) ou como um primeiro beijo ou como se descobre, num repente e sem intenções, uma vontade de estar pertinho e que os trezentos e cacetada de quilômetros fossem embora correndo e a estrada encolhesse e existisse tele-transporte e
eu pudesse encostar a cabeça nos seus ombros pra descansar porque tudo estava pesando demais em uma hora de descobertas.
Pois bem, nesse certo dia foi isso mesmo, descobrimo-nos. Depois disso não dava para ficar dois dias seguidos sem contar que hoje eu fui na escola, falei com a minha mãe sobre os cursos novos que quero fazer, comprei uma blusa, ai, é tão linda, preta com detalhes prateados e azuis, você gosta de azul?, comprei morangos também no final do dia, ai morango é a melhor coisa do mundo, já comeu com leite condensado?, delícia, vou comer isso mais tarde. E ela dizia em são paulo continua frio, minha mãe trouxe sopa, aqueceu bastante e comprei muitos chicletes também, adoro mascar chicletes por isso meu apelido era babalu quando eu era pequena (uma pausa para contar-lhes que achei de uma sutileza imensa esse ‘babalu’, tão menininha, tão frágil, tão essência de inocência).
Para os mais atrasados, entendam: conhecemo-nos por gostos em comum, procurando por aí pelo vasto mundo da internet e acabamos por achar a alma gêmea, sem que tivéssemos que escrever o nome, o e-mail e as características físicas.
Chegou então a hora em que não se suportava mais tanta falta da presença que apertava o coração, esmagava, fazia nós na garganta, cócegas enlouquecedoras na barriga e aquele incômodo constante: Vamos nos ver, falei, num súbito e cheia de medo que houvesse recusa. Mas como haveria recusa se ela estava, assim como eu, com os olhos vidrados na máquina por horas seguidas enquanto nos falávamos? O próximo feriado, quando será? E maquinávamos até a madrugada ir se despedindo: Semana Santa, Tiradentes, dia do trabalho, e acabamo-nos por decidir: férias escolares - já disse que éramos jovens jovens ainda? Nas férias teremos tempo de sobra pra fazer tudo o que planejamos. Sim, tinhamos planejado uns vinte tópicos para fazermos quando estivéssemos juntas, desde olhar as estrelas, rolar na grama, comer fondue, ver filmes ou simplesmente dormir com as mãos quentinhas encostando e protegendo do frio, que sempre era grande no quarto todo arrumadinho da minha pequena, que eu conheceria em breve. E planos planos planos mas como fazem planos essas garotinhas, dizia minha mãe toda preocupada com a amizade via-internet da filha. Mas consentiu, a minha e a
dela, que nos víssemos e passassemos juntas as tais férias frias de julho. Veio pro Rio, marcamos e o coração disparava duas horas antes de.
Lá estava eu no aeroporto, uma franja mal cortada, quinze anos feitos em menos de um mês e um sorriso de orelha a orelha, embora isso não fosse possível já que tenho umas bochechas bem grandinhas, mas a felicidade era explícita no olhar mesmo, não só no sorriso ou no mexer constante das mãos e o celular ligando, desligando, esperando um sinal qualquer de que ela tinha pousado já na minha terrinha. A história rapidinha dela é assim: morava com a mãe em São Paulo e o pai, um cara como os que dizem por aí bem gente fina e entendedor de assuntos bem interessantes, morava no Rio também. Mais fácil, pensei quando soube. Ambos espíritas, viviam dizendo que recebiam um espírito que contava poucas coisas das que aconteceriam no próximo mês. Não sei se eu acreditava nisso fielmente ou dizia que acreditava pra não deixá-la triste, mas o intrigante é que vezououtra acontecia mesmo e eu começava a achar que não era só pra agradá-la que eu confiava nos sonhos em que os tais anjos lá se apresentavam. Então, falando no pai, os vi chegando lá no finzinho da visão naquele aeroporto cheio de gente desembarcando e embarcando, loucura, famosos, velhinhas, pessoas com plaquinhas escritas: Fulaninho - RJ, ciclaninho, aqui!. Enfim, os vi, assim como eu estavam eles. Sorriso, nervosismo, aquele não saber o que fazer a todo o momento e é complicado demais conhecer as pessoas assim.
Oi Lu. Dei um abraço quase que interminável e nos nossos olhos lemos tudo o que sempre falávamos virtualmente. As declarações, as frases que mostravam tamanha angústia por ter essa estrada tão grande e esse céu tão infinito que nos separava. Demos um sorriso discreto, contido, mas sabiamos que nossas almas sorriam, davam festa aos céus, e, unidas, dançavam um tango ou um bolero ou um sambinha ou um forró ou um rock ou qualquer coisa em que sabe-se alegre a pessoa que dança. Tudo isso líamos no "oi, como foi a viagem?" Tudo disfarçado, mas os olhos, ah, já disseram certa vez, eles não mentem. Se olhassem nossos olhos, se o pai dela olhasse com carinho o brilho das nossas retinas, acho que nem nos deixaria passar mais dois dias juntas. Mas os adultos são meio bobinhos de vez em quando e isso passou como se não tivesse passado coisa alguma. Resolvemos fazer passeios turísticos, orla de copacabana, urca, cristo redentor - para que abençoasse aquilo que estava novinho ainda cá dentro de nossos peitos. Minha avó, que sempre fora uma preconceituosa de primeira, mas muito bem apessoada, um amor, queridinha, fazia tudo por mim. Nos levou, então, nesse mesmo dia em que vi a menina de rosto redondinho que mais parecia um biscoito trakinas - já disse que se chamava Luciana? - para dar essas tais voltinhas. No carro, Lu e eu conversávamos disparadamente como esses cadetes da aeronáutica que fazem aulas de tiro ao alvo, não parávamos de atirar as palavras e éramos boas nisso. Entre frases sobre viagem, fim de semana, comida preferida, ai essa árvore é linda ou essa rua tá cheia, porque tá trânsito, é sempre trânsito assim?, encostamos as mãos e as entrelaçamos. Foi como se um superior qualquer da aeronáutica, exercito, marinha -nessa hora não sabia mais qual - dissessem que os tiros estavam encerrados e cerramos nossas bocas num silêncio profundo e eterno - que duraria uns cinco minutos, não sou muito boa em percepção de tempo quando se está além desses conceitos e mergulhada em sentimentos mais transcedentais -. Olhamos, as duas, para as nossas mãos, ríamos de lado, envergonhadas nervosas felizes sem-graça ai, minha vó tá olhando, eu vi, ela abaixou o retrovisor, ela vai dizer alguma coisa, e agora?, to com medo. Não fica com medo não, amor, vai dar tudo certo, sou sua amiga, você tá me conhecendo, fala que tá muito feliz e pronto. Ela me chamara de amor e eu sabia que minha bochecha devia estar mais rosada do que o normal e quente como o nescau que começamos a tomar todas as noites, mas isso é mais a frente. Dito e feito. Quando acabamos o tal passeio e minha vó nos deixou em casa, veio cheia de dedos dizer-me que não fizesse isso com as amigas, isso de dar a mão, eu hein, mais parece coisa de sapatão, de lésbica, de fancha, de mulher-macho e eu não dizia nada, só olhando pra baixo. Desculpa, desculpa, não tem nada a ver, amigas podem dar as mãos, é uma demonstração de carinho. Minha avó foi embora e aquele medo ainda tava cá dentro, assim como o fulgor nos nossos peitos. Não, minto, o medo era infinitamente menor que o fulgor nos nossos peitos, que também não eram tão grandes assim, principalmente os da Lu.
A minha intenção é que não se veja o sexo de nós duas, que encarem essa união como uma coisa que vai além - quanta modestia, mas é que não vi até agora em toda a minha longa vida de dezenove anos história tão verdadeira e intensa como a nossa. Se não gostarem, se forem contra, se houver preconceito, encarem como se fosse um casal homem-mulher. Mas saibam, logo desde cedo, éramos meninas, jovens jovens ainda, e descobríamos um mundo de possibilidades em pele, cheiro da curvinha do pescoço e olhares quarenta e três quando tínham outros em nossa presença. E foi assim a primeira vez, quando pude saber o gosto que tinha a minha linda, e se beijava lentamente, se encaixaríamo-nos e toda essa coisa tal da espera. Vai ser rapidinho: eu estava deitada no colchão debaixo, ela na cama, em cima, conversávamos sobre sabe-se-lá-o-que quando um anjo tal passou e fez com que ficássemos em silêncio aí ela veio sorrateira desceu carinho pegou no cabelo passou os dedos entre os fios cheirosos de camomila no pescoço na tatuagem que tenho bem assim atrás nas costas logo acima perto da nuca e veio deu um beijo bem em cima onde está escrito c'est la vie. ela linda toda pertinho de mim virei bochecha nariz testa trave trave trave beijo. Soubemos: somos uma da outra.
Fomos juntas, assim como planejamos, para São Paulo passar a maioria dos dias por lá. ´Para todos os que andavam na Av. Paulista ou na Augusta ou pelas ruas bonitas o bairro de Perdizes era inverno. Pra mim, não. Pra mim era verão desde o encontro no aeroporto.
Embora tudo seja mágico lindo diferente transcedental perfeito maravilhoso magnífico infantil maduro contraditório surpreso novo ai-eu-ficaria-aqui-pra-sempre, as férias não duram e duram e duram, então teríamos que nos afastar de novo e ficar com aquele vazio cá dentro dos nossos peitos, não como o fulgor, a quase dor ou a paixão que vivia também por aqui, mas um vazio que sangra, que leva pedaços consigo e que não sara em momento nenhum do dia, que não seria mais verão, e sim outono, cheio de folhas caídas e pedaços de lembranças jogados pelo chão do meu quarto nas horas de insônia em que nem um nescau – ai! – ou um banho morno ou um livro ou um filme me deixam com vontade de dormir. Era o dia de mais um aeroporto, mas não teria chegada, sorriso, chocolate, mãos dadas no carro, olhares e almas que dançavam no nosso inconsciente. Dessa vez eu partiria pro rio quarenta graus cidade maravilha purgatório da beleza e do caos. Se bem que ele continua lindo, mas sabe-se-lá quando. Quando iríamos ter de novo tudo aquilo que nos enfeitiçou.
Chorávamos. Chorei como uma criança que não ganha o pirulito da mãe. Ela chorou como uma criança que perdia sua boneca preferida no recreio da escola. Sempre fomos muito de chorar. Meninas, jovens jovens, tensões pré-menstruais e aquela coisa toda de mais estrogênio e.
Depois de outubro, a história se repetia: a distância tamanha que vinha até cá pertinho no meu quarto como se debochasse da minha situação e risse de mim apertava aquilo que ainda batia (de saudades, de esperança, de vontades, de paixão, de...amor).
E sempre foi tudo lindo assim, cheio de siglas que só nós éramos capazes de decifrar, mil fotos que serviam de alento na solidão dos meses vazios. Sobre os nossos pais, acabaram por saber depois de um tempo. Saber o que? A relação na qual as filhas estavam se metendo. Pensamos em morar juntas, apartamento, carro, trabalho...esquecendo que tínhamos apenas quinze anos. Meus pais aceitaram. Minha mãe sempre foi dessas de dizer: se a minha filha está feliz, estou também. O que não acontecia com a minha avó, como disse antes, tamanho preconceito intrínseco na sua cabecinha conservadora. Ficamos sem nos falar. Com a Lu foi diferente. Sua mãe a mandou aqui pro Rio pra morar com o pai, o que foi, enquanto nosso relacionamento continuava a subir, de grande valia, de calmaria e felicidade pro coração. Enfim, enfrentamos o que se têm de enfrentar um casal que foge dos padrões de sexualidade aceitos pela sociedade. Um dia, como num repente, foi-se algo de explosivo, algo que queima, aquela coisa como uma vela acesa no fim do túnel ou aquele fogo que chega quando menos se espera. Foi-se isso. Restou a lembrança, a angústia de uma despedida, a incerteza de um futuro sem aquela que eu queria que andasse de mãos dadas comigo até pra comprar pão. Separamo-nos. Separamo-nos com aquelas tantas lágrimas as quais eram de costume.
- Mas vou ser pra sempre sua.
- Eu também, amor, eu também.
. A verdade é que nunca estive com ela querendo estar com outra pessoa. E o fim da história, no plano que conhecemos ainda - porque o que conto aqui não é em vão, é pra ficar registrado mesmo, pra que conheçam the greatest story ever told-, eu sei como é, e ela também o sabe. Vai além.


Por Aline Macedo às 4:00 PM



1.4.09

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Escrevo no papel palavras delicadas
sustento os doces versos, loucas canções, pequenas moradas
momentos, lembranças, instantes

meus choros de carêcia pela noite à minha cinderela
à minha bela, eu esboço na areia letras singelas
meus desejos desesperados de reciprocidade
musicas de uma nota só, meus gritos roucos pela cidade:
intensidade, intensidade!

mas quem é ela? quem é ela?
minha dama é gata escaldada,
donzela bem criada
que até hoje não deu cria

minha dama anda escondida
têm uns medos que só ela entende
diz sobre meu coração vadio
insanidades! meu coração está vazio

Desenho no papel traços marcantes
preencho com cores, amores, aquelas dores
cores sinceras à minha donzela
talvez expliquem que uma hora a gente aprende
que uma hora os anjos voltam a falar novamente

Por Aline Macedo às 4:20 PM



31.3.09

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Quando conto aos meus amigos essa minha história, essa minha história através de uma idéia que tive, eles não acreditam. Algo vai acontecer, eles dizem. Eu sinto pelo jeito que você me diz. Mas isso é falso. É a minha voz imposta de forma que convence. Eu não vou acreditar se dessa história não sobrar nada, se formos embora uma da vida da outra como as nossas mensagens por aí, como o meu bilhete na pilastra, como a cerveja desperdiçada no chão. Se nos perdemos? Porque acontece, né? Acontece que umas pessoas vão para o Sul, outras ficam por aqui, mas elas se perdem, elas nem sabem mais o que a outra faz nos fins de semana, se pinta, se patina, se fotografa, se dança. Comecei a pintar, ela nem deve saber. Enfim, mesmo que não aconteça – isso que eu não sei o que é e que meus amigos tanto falam: vai acontecer alguma coisa, relaxa....-, mesmo que isso não aconteça, eu posso manter gravado pra sempre na memória, através do que conto aqui porque foi muito importante. Porque foi muito importante. É. É ainda. Espero? Sabe-se lá. Aqui não sei nada mais. Espero que venha calma. Aqui eu deixo minhas malas com as roupas sujas, os segredos, as pilhas, os rabiscos, os sonhos, a carteira sem identidade. Não preciso de bagagem. Aqui eu deixo o que dói em mim e os motivos que me fazem percorrer nessa história imaginária.
Me desfaço do vento. Me desfaço do que venho sendo em março, abril, maio, junho, inclusive, e julho. Aqui é o meu agosto e eu me despeço dos sofrimentos, dos meus brinquedos do passado e das minhas ilusões. Eu vou embora, vou só com a roupa do corpo. Um vestido, é claro, pra ficar feminino, e um sapatinho de cristal preso ao pescoço, leves adornos para uma alma desadornada. Vou leve, meu peso dos ombros fica nessa estação. Que venha calma pois estou serena também, sincera, semi-nua de mim.
Vazia.
Quero emoções reais.
Talvez eu esteja subestimando a inteligência dela, a sensibilidade, a atenção e o cuidado que ela sempre depositou em tudo o que teve contato na vida, talvez eu esteja subestimando seus olhos atentos pelas estradas no destino. Talvez ela soubesse. De repente ela conseguia ler nos meus olhos um interesse latente desde o início. Talvez não fosse falta de entendimento, mas falta de vontade.
Mas se nada disso acontecer, que seja então. O tempo e suas artimanhas. Que se dane se eu acabar sozinha de novo, trancafiada nesse quarto, os olhos fechados e os milhares de pensamentos como monstros rondando a minha cabeça.

Como no final de um filme. Plena. A personagem principal está com um rosto cansado, caminhando ininterruptamente numa estrada sem movimento. Música de fundo, que eu não penso em alguma em específico agora para completar, indo sempre em frente, os olhos mirando alguma coisa lá no fundo,, um plano geral, quase não enxergando nada palpável e concreto, ou enxergando mais além dos morros e das terras da estrada que levam sempre em frente, até o fim – que pode ser também um novo começo- que, na verdade, meu camarada, que na verdade a gente nunca sabe onde nos leva, essa é a verdade. Como se enxergasse além, coisas que os outros não vêem, coisas que não se podem nem dizer. Esperanças no fim das vias. Continua caminhando, imune ao vento, a areia, aos olhos coçando e a imensidão da estrada.



Por Aline Macedo às 8:12 PM



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E esperei. Sabe quando se espera sem querer esperar? (Querendo, claro, senão qual seria o motivo de saber-me cheia de afazeres pela tarde e, ainda assim, não sentir vontade sequer de mudar de lugar? mas lá dentro, algo como a consciência ou a razão ou aqueles anjos e demônios que temos em nós; essa voz, que não se sabe de quem, dizia que eu não devia ficar esperando.) Achava-me tão infantil ali, parada numa pilastra, simplesmente a espera. Às vezes os olhos miravam alguns rabiscos na parede logo em frente, mesmo sabendo que era por trás que ela vinha. Nada pornográfico, de certo, era porque a pilastra ficava entre dois grandes corredores, então os olhos cravavam num sabendo que ela viria pelo outro. Eu nunca quis que ninguém soubesse que faço esse tipo de coisa: esperar. Finjo sempre falta de pretensão. Distraída, lendo um ou outro chumaço de folhas desimportantes. E ela vinha, por trás. Nada pornográfico, de certo, um assopro nos cabelos, um beijo singelo e furtivo no pescoço, um apertar a cintura com um pouco mais de força. Como se aquele momento, o assopro ou o beijo ou o apertar da cintura - vale ressaltar que não eram feitos juntos, a cada vez que nos víamos era uma saudação nova -, como se aquele momento simplesmente tivesse que acontecer entre as minhas turbulências. Mesmo que só durasse um instante (Afinal, corredores. Afinal, mulheres.), a pequena espera valia a pena.


Por Aline Macedo às 6:06 PM



19.3.09

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Corro pela colina e o que vejo são folhas e árvores e frutos e flores das mais lindas, e as cores cintilavam vez ou outra devido à luz da lua sobre as pétalas, um verde fluorescente e as grandes margaridas que mais eram grandes clarões, também quando a luminosidade incidia sobre elas. O ambiente em si me trazia alegria, mas eu já estava cansada de correr (porque cansa não ter certeza de nada.), corre corre corre. A casa é muito bem planejada, madeira em cor-de-rosa, janelas de um leve lilás que me fazia lembrar, pela cor, o cheiro da lavanda dos cabelos dela. Enfim, deveria estar perto. Quase chegando.
A porta não era mais que um convite, ilusória chamada, como se dissesse: vem, vem, estou aqui. Não dizia nada, mas eu podia ouvir. Cheguei perto da porta, me afastei e me aproximei de novo, dessa vez com um grande impulso. Arrombei-a de um golpe só. Força eu não tenho, não essa força que se espera para um ato desses, mas tenho vontades frementes na pele, tenho curiosidade – meus olhos, pobrezinhos! Quisera meus olhos se contentassem com pouco! – e tenho, sobretudo, paixão, que, imagino, dispensa explicações.
Não me pergunte simplesmente o porquê de eu não ter batido na porta antes. Ou pergunte. É que a casa era silenciosa e eu não suportaria se demorassem, se é que existia mesmo alguém ali, porque eu não sabia; luzes apagadas no silêncio. Mas era chamativo, pequenos pedaços cintilantes de flores nas janelas de lavanda.


Por Aline Macedo às 8:31 PM



11.3.09

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Perda.
Silêncio.

.
.
.
(a página em branco, as palavras não ditas, os pensamentos em turbilhões)
Corram, corram, ela está em perigo!
Foram pequenas palavras soltas que os meus amigos ouviram quando entraram no meu apartamento naquela tarde estranha. Eram pequenas palavras em grandes gritos assustadores cortando o vasto silêncio que martelava há horas. Envergonhada, recoloquei o espelho na parede lateral e saí da sala meio de lado caminhando pesadamente pelo corredor que me levava ao banheiro – me lembro da cara de susto que eles fizeram quando me olharam daquele jeito, sentada no chão, mãos nos cabelos meio suados, gritos, gritos. Eu deveria ter rido, soltado uma grande gargalhada, ao invés de ter saído daquele jeito, cabeça baixa, como se tivesse feito algo errado, como se fosse uma criança. Mas não ri, embora aquelas caras assustadas fosse motivo suficiente. Meu nervosismo gritava em minhas mãos trementes. Busquem-na em algum lugar, vocês não ouviram? – era o que eu queria dizer. Coloquei a cabeça embaixo da torneira suja de talco e lavei um rosto desesperado, as lágrimas se juntavam com a água que corria venenosamente, como se quisesse me tirar a tarde estranha e me dar em troca uma falsa paz – e coisa que eu tenho como meta é parar de dizer mentiras sujas à mim mesma-, o papel-toalha todo manchado do batom vermelho não só da boca, das bochechas rosadas, do queixo, do nariz grosseiramente borrado.
Desculpa, é que ela não apareceu.

Por Aline Macedo às 7:10 PM



7.3.09

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Distorções de uma realidade fantasiosa através dos meus olhos viciados


O dia está calmo, meu bem, vem pro nosso café, foi o que eu pensei esta amanhã.
Hoje eu sonhei contigo, bemzinho, e, apesar de ser segunda-feira, parece ser uma calma tarde de domingo, quando os sonhos ainda me perseguem enquanto escovo os dentes, tomo o banho e preparo meu desjejum. E mais além, quando amarro meus cadarços ou coloco algum livro na estante. Poderia ser até sexta-feira, na verdade. De qualquer jeito, seria ainda um domingo suave nos ossos, na pele, na alma. Embora a segunda viesse gritante, com mil textos para serem lindos, telefones tocando trim trim brr brr e vibram os celulares de todos pelo escritótio, e os meus chefes enchendo meus ouvidos porque a próxima pauta sobre a entrevista com aquela nova cantora pop ainda não está pronta. Foda-se essa nova cantora pop, eu nem curto pop assim, fora que o cabelo dela já tá meio fora de moda, esse castanho médio escovado e uma franja de lado no estilo pareço ninfeta, mas sou perigosa, cuidado. Eu odeio essas que querem parecer alguma coisa. Elas sempre acabam não parecendo nada, todas iguais a um grande nada num show de horror. Às vezes elas nem querem parecer alguém, mas não querem que deixem ver quem elas realmente são, e quem seriam?, aí usam esse estilo e esse cabelo pra passar uma outra imagem, sabe como é?, aí vestem as suas máscaras e fazem aqueles bicos meio sensuais enquanto cantam. Patético. Mas mesmo se fosse sobre jazz, amor. Sobre blues ou sobre o nosso velho rock and roll. Poderia ser sobre the Beach Boys. Eu poderia até pensar em colocar um pedaço da minha música preferida, mas... mas eu não tenho habilidade de pensar em tantas coisas ao mesmo tempo. A geminiana aqui é você. Isso não me sairia da cabeça. Ainda assim seria domingo, seria tranqüilo, sereno, sincero. Sabe como é? Só domingos são sinceros assim, densos num apartamento vazio, fortaleza da solidão – é como um amigo meu chama a sua casa depois que a sua mulher foi embora levando os barulhos, os gritos, as brincadeiras de amor entre risos e beijos e sexo ao longo do dia. Agora ele está na sua fortaleza, a casa vazia que só, silenciosa e sincera como se fosse o limite entre o dentro, que é ele, e o mundo lá fora. Não que eu tenha acabado de ser abandonada, não é isso, mas o vazio que fica aos domingos parece que arranca pedaço de cada pessoa que já esteve sob o meu teto, cada pedaço de pessoas que nem sequer pisaram no tapete da minha casa. Isso me deixa despida e sozinha, você entende? Então é a hora que eu me acalmo, porque não tenho mais nada a fazer a não ser ceder o meu dia pra uma contemplação amorosa, uma brisa no rosto, um cigarro queimando sozinho nos cinzeiros de vidro. Calma. Fico quietinha esperando que ele acabe, às vezes, só olhando as horas e suas voltas no meu relógio de centro dourado. Sento numa poltrona desajeitadamente colocada ao lado da mesa de cabeceira e me acalmo. É assim, meu bem, que a gente vive aos domingos, uma nostalgia boa, porque é bom, sim, quando você começa a entender.
Eu sentia nossos cabelos sendo molhados pela chuva e nossas roupas ficando cada vez mais pesadas, mas eu não dizia nada que nos atentasse a isso, ao fato da chuva, algo como: vamos ficar resfriadas ou será que vende algum guarda-chuva aqui perto? -mesmo sabendo que não se vendem guarda-chuvas às duas horas da manhã de um domingo. de uma segunda, tanto faz.- Eu não dizia nada porque tinha esperança de que ela não se importasse com aquela chuva toda, com o frio batendo nos braços molhados, logo ela que tinha um jeito indefeso, e o incômodo por ter os pés com frieiras na manhã seguinte, na segunda ou na terça, culpa dos sapatos apertados. Mesmo que eu não dissesse nada, e eu relutei em não dizer - em aproveitar nós duas juntas ali, naquele banco de concreto gelado, os cabelos colados no rosto, o ombro encostado tentando achar proteção em um outro ombro (Porque quando nossas roupas ficam coladas ao corpo, eu me sinto mais perto de você. não tem espaço algum que me separe da sua pele)-, ela perceberia. Sim, porque as senhoras que passavam correndo com seus guarda-chuvas olhavam de um jeito estranho e reprovador. Como se houvesse algum problema em gostar de sentir toda a poeira indo embora, todas as dores e as mágoas e só aquela chuva e você, e a outra pessoa, e nós, só nós duas ali, paradas embaixo da chuva, num banco, em frente ao mar. Admirar o horizonte, que mal há nisso? É ingenuidade genuína, uma sensação pura, porque vai limpando, né, a chuva limpa. E você sabe, porque você também se manteve em silêncio. Talvez você pensasse que poderíamos ficar uns dias sem nos ver caso alguma de nós ficasse doente, talvez você pensasse que poderíamos ao menos ficar sob a marquise, mas você ficou calada para que o nosso momento não acabasse rápido assim. Talvez você não tenha pensado em nada, é verdade, eu que sempre vivo viajando e não controlo os meus pensamentos. Foi quando eu falei que deveríamos sair dali, que você já estava miudinha demais, encolhidinha demais e que eu estava começando a ficar com medo que algo ruim pudesse acontecer. (E os nossos filmes merecem sempre finais felizes.) Aí você me olhou com seus olhos expressivos, esses que eu acho tão lindos, e ficou dizendo frases aleatórias, que você queria tudo aquilo que estava ao seu alcance, toda essa imensidão pra você, o mar, o céu, as estrelas, a areia, o vento, a minha blusa molhada, o meu ombro. E me abraçava, pequenina, seus braços tremendo enroscados nos meus. Aí você sorriu e disse, -e dizia num tom de voz um pouco alto, porque a chuva era tanta que ficava difícil ouvir até- você disse que queria ficar mais ainda, que não teria problema, que temos que aproveitar a vida mesmo, ué, não é assim? Sem nem ligar pra essas pessoas que nos olham na madrugada de domingo. E me dava as mãos frias pra eu aquecer na blusa gelada. Não adiantava nada, nós duas sabíamos, mas só a sensação de proteção já aquecia. E calma. com os travões, os raios, as ruas alagadas. Foi assim. Aí eu acordei e pensei: meu bem, hoje vai ser um dia calmo, vem pra um café. Mas não disse nada. Esse telefone que não toca. Brinco com as teclas, ameaço discar o seu número quarenta vezes, mas me falta alguma coisa, é falta demais. ainda estou aqui, na minha segunda que é domingo, com suas mãos molhadas na memória, seus sorrisos e aquelas tolas esperanças. eu só me deixo doer em lembranças porque é bom.

Por Aline Macedo às 4:27 PM



11.2.09

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Quando eu tenho alguns minutos livres no meu intervalo, você não está, mas talvez seja melhor eu começar a falar antes que eu não possa fazer isso mais tarde. Olha, meu bem, Não me entenda mal, é que a vida corre. Você sabe como é, às vezes a gente perde as rédeas do nosso próprio cavalo, ele sai seguindo sozinho correndo, correndo, e você só tem tempo de fazer os planos e os planos e as estradas errantes na frente. O tempo corre. Esses ponteiros não param, os sinais logo ficam vermelhos, os pés caminham cada vez mais rápido, em passadas tensas, sempre atrasados driblando os obstáculos das ruas quentes. Não me entenda mal, não é que eu não queira aquele chá que tanto tomávamos nas manhãs de inverno, é que meus exames precisam ser refeitos, tenho que ir a costureira e, além disso, preciso ir lá na agência do meu banco, porque vieram umas compras estranhas na fatura desse mês, vê se pode? Só faltava terem clonado esse cartão. Era julho, eu me lembro, talvez tenha sido uma das últimas vezes que nos vimos, e depois aquele dia lá por Laranjeiras. Nesse dia rimos um pouco e confesso que descobri uns detalhes bonitos em seu rosto, mais bonitos do que os que eu tinha reparado antes. Foi um rápido encontro, furtivo numa quinta-feira dessas. Eu não tenho sido muito presente, eu sei, meus pais vieram passar uns dias na minha casa, - eu te contei sobre isso? e então tive que consertar o chuveiro porque minha mãe só toma banho de água quente. Acho que na semana que vem eles vão embora e vamos ver se eu dou sorte de te achar em casa. Não me entenda mal, é que logo chega o Carnaval e eu prometi viajar com a Marcinha, lembra da Marcinha? Minha amiga da época da faculdade? combinamos a viagem desde o ano passado, não é nada demais, cabo frio talvez, ainda estamos pensando. Esse calor todo também que não me deixa sair de casa direito, o suor, as pessoas, os ônibus com suas baforadas de fumaça nas pernas enquanto eu atravesso a rua. Eu fico de mau humor, você sabe como eu sou. E não me chama de fresca, não é frescura isso, é que minha pressão já começa a baixar. Não me entenda mal, docinho, se quer saber mesmo a verdade, as lembranças que tenho de nós me alimentam pros dias em que não tenho tempo, e pros meses, porque já passaram tantos meses desde laranjeiras, mas vamos marcar. Eu quero marcar e ir, num dia calmo, tranquilo, quero marcar aquele café na prefácio, aquela água-de-coco na praia de Ipanema ou, sei lá, talvez uma cerveja. E isso é pouco ainda, eu quero marcar um vinho aqui em casa, eu só não tenho Tempo. Me entenda, amor, meu despertador já tocou e está na hora de voltar ao trabalho. Não ache que eu não te quero bem, bemzinho, não é isso. Eu te quero muito ainda, viu? Viu, docinho? Quero que você preste bem atenção. Talvez quando eu tirar minhas férias, possamos fazer alguma coisa mais demorada, uns dias em Teresópolis, quem sabe? Chocolate quente e uma lareira pra nós dois. Seria lindo, não é, docinho? Mas o Sr Roberto diz que ainda precisa de mim, que tenho que ficar por enquanto, já que aquela mocinha nova que entrou não anda dando conta das coisas muito bem. Eu sei que são planos e não venha me dizer para não fazê-los, eu não consigo, entende, é que eu realmente quero. A culpa não é minha, não é sua, são só esses desencontros. É que a vida, os dias, a novela das oito... eu nem os vejo mais. Mas na próxima quinta eu to de folga, tenho que resolver umas coisas pela manhã, mas talvez a tarde, hein? Será que você trabalha à tarde na quinta-feira? Bem, meus números ainda são os mesmos e eu to em casa sempre de madrugada, é a hora mais certa. Tenta. Vamos tentar marcar mesmo. Um beijo, docinho.

Por Aline Macedo às 12:01 AM



7.2.09

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Insônia, desespero, loucura. Tudo me invade nessa noite calma no centro do Rio. Graças a Deus ou à São Pedro, não choveu hoje, contrariando, inclusive, a meteorologia. Se bem que não é uma contrariedade, afinal, eles só disseram no jornal que poderia chover, que tinham grandes chances de pancadas de chuvas no final da tarde. Mas nada ainda até agora que já está de noite, que já é o outro dia e eu procuro se amanhã, quem sabe, talvez esteja certo que vá chover. Chuvas fortes, eu espero, que limpe tudo por fora desse quarto acordado às escuras. Máxima de trinta e seis graus, mas estamos em fevereiro, você manja rio de janeiro em fevereiro? - Não sei porque cismo em achar que alguém me ouve aqui nesse silêncio sepulcral - Aquele sol que queima até o couro cabeludo só de andar um pouco na rua pra pegar um ar, pra sair daqui de casa ao menos pra respirar direito, e aquela atmosfera abafada e o suor que começa a ser sentido através das blusas um pouco apertadas, aquela pocinha de suor embaixo do sutiã ou algo que o valha, coisas que me incomodam quando eu saio de dia. Meus cigarros mentolados já acabaram e só me restam mais três de um maço forte que comprei num dia em que a vodka desceu fácil. Com morangos e limões, não me lembro ao certo. Eu estou aqui no meu quarto, talvez desde às 18h tentando encontrar e reorganizar meus pensamentos, coisa feia que fiz nos últimos tempos foi deixá-los de lado, e agora já são quase quatro da manhã. Quatro da manhã de um sábado sem sono e com uma possível maquiagem carregada daqui umas três horas pra esconder as imensas olheiras que denunciariam o fato de que eu não dormi. Saiu pra noitada, afinal, sexta-feira, e chegou assim, falta de responsabilidade, dirão no trabalho. Antes fosse. Antes houvesse companhias e bebidas e mais cigarros à vontade pra essa noite que perdura como longas semanas arrastadas, daquelas em que nada faz sentido ou nada realmente dá a sensação de dever cumprido. Noite fiel essa, fiel às minhas perspectivas. Fiel a minha essência, principalmente, com esses planos e essas listas e essas intermináveis idéias de viajar por aí, por dentro e por fora, além, nos entres das relações e dos espaços. Antes eu tivesse saído Às 18h, dançado até o salto do sapato quebrar, chegado em casa, tomado um banho rápido e ido para os meus compromissos matinais. Ressacas se curam com alguns sucos milagrosos que vendem em um desses botecos. Ou não. Mas não se trata disso, meus olhos são de ressaca das minhas noites em claro. Os peões já devem estar acordando e se preparando para começar as obras. As senhoras tomam seus cafés adocicados com adoçante, as da Zona Sul. E os tarados provavelmente ainda estão na esbórnia e nem se preocupam se amanhã vai fazer esses tais 36 graus. Eu cá com meus botões coloridos estou pensando se vou aguentar mais um dia de ar úmido e a provável pancada de chuva. O calor é tanto por aqui (pela manhã e pela tarde. como estamos na madrugada, talvez o ventilador faça algum efeito, e a janela aberta e esse vento que entra vezenquando aliviam minha pele) que é quase impossível vestir roupas descentes. Um short, uma blusinha desbotada e esse meu rosto cansado são minhas vestes a essa altura das horas. Talvez eu aguente essa chuva, eu penso, agora meio sem querer pensar em nada, só em voltar ao momento em que entrei em casa hoje, e desistir de tudo o que eu fiz só pra dormir, talvez ela me limpe mesmo, talvez tire essa loucura, essa desespero, essa insônia. Talvez a chuva me acalme amanhã, que é hoje, talvez se alguém estiver me ouvindo eu posso ficar mais calma também, talvez eu tome um leite quente e consiga alguns minutos com os meus olhos fechados. Pobres olhos intensos que querem devorar tudo o que vêem, pobres olhos famintos que não descansam a horas. Pobre de mim, que ainda não juntei os quebra-cabeças da minha mente, e já é tarde, ou cedo, e eu preciso me retirar desse quarto que me prende de olhos abertos. Preciso me retirar de mim antes que o dia comece sempre corrido. Já estou atrasada, afinal. O café, os cigarros, as duas aplicações de corretivo embaixo dos olhos e estou pronta. As pálpebras pesarão por horas e infelizmente um dia de calor. Chuva ao entardecer, talvez eu aguente. Quero que chova, quero aguentar as roupas pesadas e molhadas até chegar aqui outra vez, amanhã quase a noitinha, e aí sim, me retirar e poder dormir um pouco. Afinal, loucos, desesperados e insones também precisam de sonhos.

Por Aline Macedo às 4:29 AM



31.1.09

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Ahhh! Eu e meus escritos. Aqui me explodo, me mostro em pedaços. Os segredos de mim não são revelados explicitamente. Meus segredos nas entre-linhas. Minha vida contada por mim, jogada na vida dos meus personagens; um mero disfarce para esconder as minhas tolas humanidades. O que sei de mim vai além do que conto aos outros e a mim mesma, porque eu tenho receio de saber todo o caos que ronda os meus pensamentos. Eu sei que existe uma força em mim. Me controlo e deixo detalhes ao vento, para que eles estejam sempre em movimento e não me assaltem quando eu estiver vulnerável. Essa força, esse nó prestes a desatar e a tirar os limites... Eu tenho medo é de não conseguir me dominar.

Por Aline Macedo às 8:55 PM



31.12.08

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Mais do que dela em si, em seu corpo totalmente humano (que eu conheceria minutos depois, todas as curvas, nem todas, talvez, mas a maioria clarinha com algumas sardas perdidas nas costas, pêlos clarinhos, olhos castanhos amêndoa ou mogno ou menos escuro, dependia da luz que incidia ferozmente sobre a penumbra do quarto de cortinas entreabertas), eu lembro dos seus cabelos negros. Não eram grandes nem lisos nem bem cuidados. Eram meio ruinzinhos, até. Curtos, na altura do queixo, faziam o rosto fino parecer mais redondo. Eu me lembro deles não só pelo caimento, mas pelo cheiro. Cheiravam a cigarros fortes, sempre vermelhos. Eu saberia depois que havia, lá no fundo, um leve toque de lanolina ou camomila, que só pude sentir quando afundei propositalmente minhas narinas em seu coro cabeludo uns dois dias depois. Ou dois meses. Dois anos. Nunca sei ao certo o tempo que a nossa história suportou.

Por Aline Macedo às 8:43 AM



22.11.08

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E lá estava eu, perdida com os olhos abaixados e meus diálogos internos incessantes, perdida naquela rua que eu não conhecia direito, cheia de buracos no asfalto, querendo só ser achada. Ela chegou. Meus olhos a viram lá de longe, com aquela pele de pêssego rosadinho. Sempre achei que suas bochechas teriam gosto de salada de frutas, mas nunca disse nada. Nem tivemos tempo para que eu dissesse alguma coisa. Não veio exatamente pra me achar, mas para que eu a achasse. Vinha com uns olhos maduros e tristes, como se quisesse algo mais praquela vida de faltas. De faltas e forças. despedidas. desencontros, talvez. Eu (perdida), com as mãos nervosas que se apertavam e ela com as mãos livres balançando suavemente próximas ao seu vestido (de flores). Nos abraçamos por umas cinquenta horas dentro do meu tempo, o que deve corresponder a uns cinco ou seis minutos. Eu sentia aquela empatia inata de quando duas respirações vão na mesma velocidade. Enquanto meus olhos fechados pensavam no que poderia acontecer, meus cabelos sentiam seu riso escondido nos meus ombros. Foi quando ela me disse que eu simplesmente deveria procurar. Na hora, eu confesso, não entendi direito. Hoje eu penso que isso foi um pedido, um pedido de cuidado, de colo. Ela sempre quis colo, eu sempre dei. E a primeira vez foi assim, depois do abraço. A puxei pelo braço e fomos para um terreno que tinha ali perto, umas árvores e coisas meio descuidadas. Sentamos em cima de folhas caídas, de cor escura. Pra mim, era o nosso tapete vermelho. Ela ficava reclamando que sua calça branca ia ficar suja e que isso não sai, essas coisas das plantas, isso mancha, ela dizia. E eu nem aí. tapetes vermelhos são confortáveis. Ficamos ali, naquele tempo só nosso, com as pernas cruzadas, uma ao lado da outra. De novo seu sorriso entre meus ombros, afundados. Depois se afastou, colocou a cabeça nas minhas pernas, se ajeitou, fechou os olhos. Achei tudo isso tão lindo, tão bobo, tão simples, mas tão ela. Essas atitudes inesperadas que banham o coração de mel, parece. Meus dedos por entre seus cabelos e um perfume bom que saía por detrás do pescoço, dava pra sentir. Mexeu na sua bolsa rosa de bolinhas e tirou uma caixinha com morangos. Adoro morangos, pensei. Adoro morangos, sabia?, ela disse. Foi quando eu lembrei das bochechas de pêssego, gostinho de salada de frutas. Estar ali era como uma força maior, só podia ser, todos os nossos desencontros, nossas faltas, nossas despedidas através de portas, de palcos, pessoas e distâncias. Era o nosso momento, e é claro que eu falaria que sempre imaginei que ela tivesse gosto de salada de frutas, e legal, né? você trouxe morangos. E aquele sorrisinho de canto de lábio tão lindo que abria o sorriso maior, aquele dos dentes alinhados. Aí ela levantou, cruzou os braços, encostou na árvore, sujou a blusa e me olhou. Me olhava madura, calma, feliz. Insistentemente seus olhos afundados nos meus, por horas. A partir daí eu não lembro como foi, costumo esquecer fatos de grande impacto, parece que entro em choque, o médico disse. Nem tento entender, mas agora eu não páro essa busca desenfreada. O que eu devo achar? nossas horas perdidas num bosquezinho com tapetes? vestidos, flores, morangos, manhãs ou manhas?

Por Aline Macedo às 1:05 PM



16.11.08

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Abra-me agora. Comece pelas minhas cortinas, meus cabelos, e mostre meus olhos aos seus olhos. Pode me julgar, eu sempre acho que você faz isso mesmo, com seu olhar intenso, delicado, provocador. Mergulhe depois nas minhas veias que estouram vezenquando e nas retinas que parecem descolar quando enxergo teu entre, teu dentro. Depois tira a minha blusa, me despe, me toma. Me toma nos teus braços, me envolve, me aconchega. Chega de repente, de surpresa, ou marca um horário comigo, mas chega. Chega mudando tudo de lugar, deixando a casa do teu jeito, pode mudar a poltrona sim, a luminária pra lá?, chega pra mexer com o meu mundo. Penetra teu perfume nas minhas roupas, teu suor no meu lençol branquinho, bate teu tênis de rua nos meus tapetes vermelhos. Vem com tuas flores de sábado pra mesa posta do jantar. Isso, chega com flores também, eu gosto. flores me lembram você, quase todas elas. Mas pode sujar meus cinzeiros com tuas cinzas também, com teus filtros de cigarro. Mas me descobre, por favor. Faz um esforço. Talvez seja complicado no começo, mas eu preciso que tirem de mim essas idéias e esses buracos daqui, presos. Me abre agora que eu to cansada desse vazio, me PREENCHE. Chega com essa força, com esses olhos, com esses lábios se mexendo involuntariamente, modulando sílabas que arrepiam os pêlos do meu corpo. Chega assim, como um furacão, e me invade por completo. Me toma, pelo amor de Deus. E faz com que um você se instale dentro de mim.

Por Aline Macedo às 10:51 AM



9.11.08

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E eu cheguei a pensar que mudei alguma coisinha aí dentro, que eu tinha um cobertor que te deixava mais quentinha, aí você falava coisas doces - como aqueles chocolates, lembra? os chocolates e os filmos bonitinhos antes de dormir. Eu cheguei a pensar que os nossos intermináveis abraços realmente nunca terminariam. Que nossas saídas furtivas pelas cidades continuariam até o dia em que você me olharia no fundo dos olhos, tiraria a franja dos meus olhos com seus dedos delicados e amarelados pelo cigarro, aí você me diria, assim, intesamente:... Eu nunca pensei bem no que poderia ser dito, mas o momento sempre me passava pela cabeça em flashes vibrantes quando tomávamos café de manhã. Mas nunca te conquistei, eu acho. Tudo não passou de crianção da minha cabeça infantil. Cabeça sonhadora, vai saber - quem liga? Nem eu ligo. Nem te ligo mais, nem te visito como antes, nem te sei. É como se eu tivesse trocado meu livro de cabeceira contra a minha vontade. Já não importa mais. Mas aí eu penso, e se...e se eu tiver chegado perto desse toque aí dentro e por isso você tenha ido embora tão cruelmente? E se eu cheguei quase lá? se eu dei uma ansiedade, uma expectativa, um tremer das pernas entre beijos? talvez, talvez. nunca vou saber. Nem você saberá que vivo nisso em pensamentos que são cordas, que me amarram, sufocam e prendem. Malditos pensamentos, malditas esperanças. Maldito destino que sai desviando as estradas. Maldito tempo que vira e revira o meu mundo.


Por Aline Macedo às 10:54 PM



29.10.08

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Só teu corpo é morada
das viagens que faço a noite,
desacompanhada.
Trêmula,
meus sentidos procuram vestígios do teu cheiro
Na minha blusa
Nas minhas curvas
Por entre os cabelos
Estou sozinha
No entanto, essas mãos (são minhas?)
que me tocam bem podiam ser as suas
Só a lua é testemunha
das viagens que faço à noite,
Nua,
E das frases ditas entre suor e gemidos:
me morde, sou tua.
O corpo estremece mais uma vez
Um único suspiro e já é tarde
Talvez eu te tenha todo Às seis
Talvez só pela metade..

Por Aline Macedo às 7:46 PM



28.9.08

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Isso de limites não funcionava com ela. Mas tem a janela... E daí? e daí que tem a janela, caralho? Pula essa porra. E eu ia lá, submisso. Eu pulava a porra da janela. Já aconteceu de eu quebrar algumas partes do meu corpo, mas sempre me recupero bem, sempre aprendo, de verdade, onde está o defeito, onde está a saída, o caminho. Portas fechadas? Arrombe-as. Vai dizer que é fraquinho demais pra isso, João? Pelo amor de Deus. Eu olhava seus olhos raivosos. Era como se ela não entendesse como alguém podia deixar oportunidades e sonhos irem embora só porque tem a merda de uma pedra no meio do caminho. Seus olhos cantavam umas canções frias com as retinas a pularem pra fora, os cílios tremendo, eram estímulos para que a minha fraqueza, sempre disfarçada, viesse a tona. Sempre naquele quarto escuro
com aqueles quadros de filmes antigos, que ela adorava, que ela dizia serem seus companheiros quando tudo ia mal, quando ela não conseguia transpor os limites. Aí lá ia ela com suas pipocas e guaranás numa tarde chuvosa de domingo assistindo todos os seus dramas e suspenses pra terminar o dia com mais segurança de si, pra ferver um pouco em humanidade antes de tomar qualquer decisão.
Eu sinto muita falta de doses intermináveis de Natália quando me sinto sozinho, como agora, como há um tempo venho me sentindo, desde que deixei meus pais no interior e vim pra Capital tentar ser alguém. Desde que eu não estou mais aqui só de passagem, desde que constatei a mim mesmo que quero ficar bem perto da Natália, mesmo que ela não me procure, como agora, então dói mais. Dói mais porque é isso, eu disse, eu quero e pronto, vou ficar por aqui, mesmo que ela não apareça. Mas o que eu não imaginava (ou já imaginava, mas custava a acreditar, porque a gente sempre é otimista, por mais mentiras que falemos sobre isso para os outros. sempre somos meras polianas falando que tudo vai dar certo. eu já imaginava, lá dentro, que poderia ser assim. Ela nunca teve limites mesmo, como faria uma rotina de abraços e desejos se não se limita a isso? eu realmente já pensava que isso poderia acontecer) era isso. Era que ela me deixaria aqui, como se eu não fosse ninguém importante, um mero amiguinho de escola, sei lá o que ela pensa que eu sou. Quem ela pensa que eu sou pra me deixar assim com essa porra de chuva lá fora? Isso é limite sim, essa redoma que ela cisma em deixar em mim despretensiosamente.
Aí eu lembro, só porque tá chovendo, só porque eu queria sair daqui um pouco, espairecer a cabeça, sentir um pouco da brisa e fumar meu cigarro em paz acontece isso, essa chuva toda, essa impossibilidade de bar e cervejas na calada da noite. Aí vem a Natália, aquela coisa que passava chamando toda a atenção, aquela andar todo elegante, aqueles saltos vermelhos. Aqueles saltos vermelhos e as certezas, os olhares, os dedos entre os cabelos e os discursos.
Nem música eu escuto mais, porque música me lembra a Natália, quando ela vinha por aqui, me ligava e eu atendia todo sorrisos e intenções as portas sempre frias de onde eu estava. eu sempre estive no frio mesmo, não importasse a temperatura lá fora. E ela vinha saltos, sorrisos, decotes, constatações. Puras, verdadeiras. Constatações que sempre me pegavam desprevenido entre aqueles vinhos derrubados na toalha branca. Eu gosto de você. Você gosta de mim? É, eu gosto de poder transar com você e derrubar todo esse vinho assim, parece desperdício, mas eu gosto disso. e eu lá, boca entreaberta, pensamentos e medos. Eu tinha medo que ela viesse cheia dessas vontades, me algemasse e começasse a fazer qualquer coisa louca, que eu, como louco desconfiado que sou, não aceitaria muito bem. Ou que começasse a pegar umas facas e viesse juntar na cama e no sofá, que eram seus lugares preferidos pra fazer sexo. Eu tinha medo de que saísse do banheiro com os cabelos molhados e começasse a encarnar um personagem qualquer daqueles tantos filmes que eram suas companhias para aqueles dias, aqueles dias em que ela não atendia uma ligação sequer naquele celular de última moda que ela tinha. Deve ter trocado por um novo, faz tempo que não recebo ligações dela, faz tempo que não sou surpreendido pela companhia e pelo cheiro.
Choveu. Penso em ligar pra Natália assim, como quem não quer nada, fingindo parecer sempre bem, sempre bem sucedido, sempre com muitas outras mulheres a procura. Ligo com aquela voz suave e posso dizer que, po, estou sozinho, vem aqui, aluguei uns filmes, vem ver, sei lá, pra passar o tempo. Natália talvez risse no telefone e dissesse algo como: deixa de ser bobo, eusei que você me ligou só porque tá com saudades. Ela sempre acertava essas coisas, essa bandida. Mas porque não? deixa ela saber, ué, e aquelas pedras todas, eu não posso tê-las mais. Foda-se que não pára de chover a noite toda. Natália, vem aqui ouvir aqueles vinis. Natália, vem, antes que eu me afogue nessas lágrimas todas de saudades, porra, eu aprendi, eu juro que estou fazendo como você me ensinou. Atende esse telefone, Natália!


Por Aline Macedo às 11:22 PM



27.9.08

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Ainda penso nisso, ainda que brevemente, em relâmpagos quase cortantes. Eu ainda imagino algo como um cinema, um restaurante, um vinho e você. você no meu ninho, em meu meio. Da boca, dos seios, das pernas. E as mãos, lerdas, que vão calmas pela pele que ouriça e arrepia, e os pêlos da pele em pé enquanto lá embaixo esquenta e o calor que sobe até o pescoço marcado. E se eu for mesmo irreversível? E se eu insistir nessa coisa toda que só passa superficialmente? Deve ser natural, coisa de louco. Eu, tão em mim, toda segurança, te olhando insistentemente. Seus olhos me olhariam furtivamente, medrosos. É normal ceder a loucura. Se você quisesse, se eu pudesse dar de mim mais do que é pedido só pra você transbordar em carinhos e eu lá, nas suas costas, te envolvendo, mesmo tão pequena. Envolvendo todos os pedaços suados do seu corpo. Ah, esses olhos... não me olha desse jeito, me olha com vontade. É tão mais bonito dessa forma, nesse marcar infinito. Se eu pudesse ao menos mergulhar nos seus olhos todos os dias... meus olhos como ímãs: grudados em você.

Por Aline Macedo às 1:54 AM



22.9.08

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Houve uma época (um inverno desses que deixam vazios quando passam) em que eu costurava todos os dias. Ponto-cruz, bordado, crochê, aplicações de miçangas. Meus laços eram vermelhos e os misturava com amarelos, roxos e azuis. Até que, dentre minhas gavetas, achei uma fita de cetim verde - uma das mais bonitas vistas até então. Fiz uma luva verde e vermelha que aquecia minhas mãos em noites em que o frio era rigoroso. Vezenquando, quando queria colorir meus dias com o verde das árvores, das matas e dos olhos, o rolo de fita sumia. Passara horas a fio a procurar e nada. Fiz uns três bordados com essa cor. Ainda me sobravam idéias de roupas quando me dei conta de que tinha perdido uma das mais bonitas fitas de cetim que já passaram pelas minhas mãos. Agora procuro semelhanças por aí, traços de parentescos
com minha fita preferida. As lembranças eram cruéis. Aquela poderia ser minha melhor escolha. Mas o tempo passa, não é assim? No fazer e desfazer dos novelos, deixo que seus laços se lacem sozinhos. Que minhas fitas se embolem em outras, não com essas fitas lindas verdes.
Mas meus olhos não falham, eu sei que essas cores dariam a minha melhor costura.

Por Aline Macedo às 11:03 PM



20.9.08

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fura
tudo é vento
fuga
tudo é momento
fuja
tudo é tempo
fúria
furto
fogo
fenda, filho
fardo
fuja
se é que há tempo
e há
vento também
loucos espaçosos
destroços
ossos
de vida, de nós
de laços
traços. nós:
palhaços
roda gigante
que roda, roda
menina grande
que perde o amor
fica dor, vazio
frio
pequenos pedaços
cacos cortados
mínimas lembranças
tranças de cores
dores
é tudo o que resta, então
fuja
do caos, do morto, do torto
reinvente-se
a cada segundo
mundo
sobre nós
ou dentro, em nós.

Por Aline Macedo às 5:26 PM



16.8.08

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Era uma desgraçada, coitada, e dizia isso todos os dias quando acordava. Então, pela força do pensamento, mesmo que não fosse, era. Saiu, um dia, em busca de algo que desse alguma utilidade para aquela vida de nada que tinha entre as paredes descascadas de sua casa. Botou a mochila nas costas e disse: é agora. É agora que não encontro nada, mas vou tentar. Não sabia por que tentaria, sempre fora tão inferior a todos na escola, sempre fora tão incapaz no trabalho, sempre fora tão insuficiente para todos os que viviam com ela que seria praticamente impossível dar certo em alguma coisa, ainda mais sem projeto algum, assim lançada por uma mola interior ao mundo tão cheio de gente e tão saturado de trabalhos. Não deveria haver espaço algum nisso tudo pra ela. Mas foi depois de um sonho que resolveu tentar. Nesse dia havia dormido bem cedo, antes da novela das oito, depois de ter esquentado o jantar. Sonhou que tinha dois filhos, uma menina e um menino, e que tinha uma casa bem grande lá na região dos Lagos. E que tinha educado seus filhos sozinha, e depois os colocado numa escola boa, e eles cresciam, e a casa ficava cada vez mais bonita porque todo ano ela fazia obras para melhorar. Não tinha marido. Ao menos ele não aparecia no sonho, talvez só em algumas conversas. Mas não lembrou ao certo, pela manhã, se realmente ele fazia parte daquela vida grandiosa que tinha. Aí acordou naquele impulso e, ao mesmo tempo, naquela vontade de dormir pra sempre. Mas seus remédios para dormir tinham acabado e só restava a lembrança do sonho. Então foi-se. Colocou a mochila nas costas e disse: é agora. E daí em diante nunca mais ouvi falar na desgraçada da Clotilde.

Por Aline Macedo às 11:21 AM



14.8.08

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Preciso me perder em algum corpo. Preciso deixar pedaços de mim por aí, em alguma alma solitária que se complete com a minha. Preciso jogar meus problemas janela a fora de um quarto em que reine só pele, só compromisso com o que me faz bem e o que faz bem a uma outra pessoa que ainda não sei qual. Tenho tantas paixões que de nada me servem, são como coleção de figurinhas: inútil. Preciso de pessoas, de pessoas que saibam o que é sentir. De pessoas que não sejam apenas corpos que andam, embora eu queira muito alguns desses corpos que nem sabem o que sentem. Mas isso não completa. Meras figurinhas. Quero jorrar líquidos do meu corpo, suor, lágrimas, gozo. Por uma única pessoa que, depois de tudo, irá me abraçar bem forte e dizer que passou, que essa maré de coisas ruins acaba sempre passando. Porque eu te quero, essa pessoa vai me dizer. Aí eu vou chorar a noite toda com um braço quente me envolvendo, 'cause I'm afraid to be alone. Preciso tanto de pele com pele antes de pregar os olhos para sonhos de vez em quando indesejados. Preciso que estejam ali, para que eu acorde assustada e tenha uma mão para entrelaçar, para não ter mais medo de coisas que nem existem. Preciso me depositar no outro, deixar marcas necessárias. Lembranças quaisquer de felicidade, de prazer, de qualquer coisa, caralho, porque sempre é preciso marcar de alguma forma. Agora, na escuridão desse quarto abafado e cheio de cinzas pelo chão, eu penso: eu não vou desistir. Passem anos, sei lá, façam todos os relógios do mundo todas as voltas que puderem, eu não vou desistir. Where's my mind? Em que espelho perdi minha face? Oh no, not me. I never lost control. Love is all you need.


Por Aline Macedo às 10:54 PM



22.7.08

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Criaram braços, esses que eram tão pequenos. E criaram pernas que os movem dentro do meu frio apartamento. Criaram corpos donos de si mesmos. Criaram olhos que me observam até mesmo a noite, na solidão do meu quarto com cheiro de fumaça verde mentolada. Fizeram-se em vontades, em ordens, em um regime nada democrático que me obriga a fazer tudo o que me é pedido: mudar uma palavra aqui, outra ali, apagar parágrafos, mudar os personagens, colocar um salto vermelho na Giovanna. Meus contos se contam por si e eu sou só um meio de eles se mostrarem aos outros, exibidos!, porque embora tenham braços, pernas, corpos e olhos ainda não aprenderam a escrever. E que não aprendam, senão eles mesmos se farão e só sobrará a fumaça verde no meu quarto.

Por Aline Macedo às 3:24 PM



10.7.08

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Você fechou a porta cedo demais, sem desenlaçar as nossas roupas jogadas, para me deixar afogada nas lágrimas de tanto doer. Tudo não passa de dias sempre iguais, as minhas horas arrastadas para me arrastar. Eu dou parabéns atrasado, eu esqueço os presentes, eu não me mexo mais. Um nó na garganta tortura as entranhas e a fala sai estranha. Esqueço entrevista, perco até minha revista, cancelo reuniões, quebro corações. Eu não me vejo mais no espelho, na fotografia, no beijo, na monotonia. Eu não me acho mais, eu não me entendo mais, eu não me queixo; eu me deixo e me afogo no dentro de mim...


Por Aline Macedo às 12:15 AM



9.7.08

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Sempre que minhas pernas tremem, eu penso: Passa em dois meses. Aí me dá aquele desespero de ser tudo tão intenso durante sessenta dias que minha pele doa dois anos mais tarde no meu quarto vazio depois daquelas bebidas todas importadas de tanto que valeu, valeu a pena mesmo que tenha sido pouco. Tudo o que eu escrevo é assim mesmo. As lembranças de uma relação de dois meses, um só, duas semaninhas poucas, mas sempre ficam de um jeito que amo porque amo tudo o que me fere. Dessa vez meu corpo ficou louco, meu cérebro parece não seguir sua habitual programação. Vamos lá, querido, chame um técnico, conserte o sistema. Já está na hora de surgirem escritos sobre uma paixão-não-correspondida-que-passou.

Por Aline Macedo às 11:52 PM



8.7.08

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- Mas eu quero que você saiba tudo, tá? Aonde eu vou, meu endereço, meu telefone. Promete que vai me mandar cartas e borrifar seu perfume e beijar o papel com batom vermelho e me ligar e me dizer que sente minha falta e que podemos ainda fazer aqueles planos, de sentar na praia à tardinha com o sol ficando bem vermelho intenso assim talvez roxo caindo chegando perto e beijando o mar e vamos beber água-de-coco-que-você-adora e depois podemos ir pro nosso apartamento, mas isso bem depois, não agora, porque agora não dá, e podemos nos enrolar entre os lençóis abraçadas e tendo tudo aquilo que sempre tivemos e paixão amor sexo amizade companheirismo tudo aquilo que você sempre quis, que eu sempre quis também porque todo mundo quer. Todo mundo quer ter alguém em quem confiar e desperdiçar os dias e noites, que nunca são desperdício, na verdade, são várias peças que se juntam depois como um quebra-cabeça pra te distrair quando há só falta e ausência, e talvez esse seja o nosso caso, meu bem, mas não vamos pensar nisso, porque causa aquela coisa que aperta, aquela dor intensa que da vontade de se jogar da ponte rio-niteroi, mas a gente espera, porque um dia tudo vai voltar a ser como é agora, e seremos mais velhas, e teremos mais dinheiro porque eu confio na gente, amor, eu confio em você, eu confio em mim e, mais do que isso, confio no que podemos ser um dia, talvez, porque eu quero cuidar muito de você ainda...

Por Aline Macedo às 1:21 PM



27.6.08

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Uma das duas disse: Ah, volta. Atropela todo mundo de novo.
A outra ficou sem saber o que dizer, achando a frase poética demais, lírica demais, sentida demais. Não sabia responder quando tocavam assim no fundo da sua alma. Sensível que era, sorriu.
A que sabia mexer com o coração da outra sorriu também, entendendo que existem momentos que nada precisa ser dito.
Mas a outra disse: eu vou, atropelo quantos mais forem necessários, todos, se puder, só pra chegar a tempo, pra ser o seu tempo.
A que soube usar a frase bem colocada primeiro chorou. Não de raiva, mas de sentimento aflorando, nunca controlava as sensações.
As duas, que eram só expansividade e delicadeza, se abraçaram num tempo que não existia, bem distantes uma da outra, mas ainda assim sentiram, como não poderia deixar de ser, que isso de horas e lugares e encontros não são necessários quando as almas sabem conversar.

Por Aline Macedo às 5:02 PM



25.6.08

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Eu nunca acreditei que viver era tudo isso que me dizem. No mundo que eu existo, muitos vivem esboçando sorrisos, cumprindo metas e amando enlouquecidamente sendo correspondidos ao mesmo tempo. Mas comigo não, parece só teoria, nunca aprendi. Não acredito mais em contos de fadas, meus contos são é de vida arrastada. Vida com problemas, falhas, equívocos. Se no meio do caminho, eu encontrar o amor por alguns instantes, a felicidade por outros e me sentir fazendo a diferença pra alguém, sinceramente eu não preciso de muitas outras coisas. Pra mim, isso já é viver.

Por Aline Macedo às 2:25 PM



22.6.08

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Ah, se eu soubesse tecer uns versos, o Sol seria meu aliado. Tão presente iluminando minha doce menina a passar desapercebida. Se eu soubesse impressionar, compraria flores, doces, bombons só pra ver o sorriso bobo da minha menina desencantada. Se eu soubesse acalmar, daria meus ombros pra quando houvesse pranto. Meus braços quando houvesse frio. Minhas mãos quando houvesse medo. Mas nunca houve, tão destemida.
Ah, se eu tivesse o dom das artes, entregaria à minha menina uma escultura, um quadro, um espetáculo. Faria até uma música. e fiz, perdida entre minha voz embargada.
Minha pequena nunca soube o quanto a quis ter cá comigo. Tivemos dois ou tres abraços, uns olhares, uns traços, pequenos abrigos.
Ah, se eu soubesse engolir sentimentos. Empurrar pra dentro as palavras. Se ao menos eu soubesse a magia...
Agora ela passa ao longe, medrosa, avisada. Acho que tem medo desse tudo cá dentro e da minha voz embargada.

Por Aline Macedo às 11:20 PM



4.6.08

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Devia ter uns sessenta e cinco anos. No seu carrinho, danones do tipo activia faça seu intestino funcionar e se não der certo devolvemos o seu dinheiro, uns três tipos de pães, geléia de cassis, cenouras, batatas, chuchus e beringela - com esse frio, imaginei que deveriam se transformar em uma bela sopa no fim do dia -, um mamão formosa e alguns itens daquela parte de farmácia: tira rugas, shampoo anti-queda, pasta de dente super ultra clareadora e cotonetes. Tirando mais algumas coisinhas que eu não conseguia ver da fila ao lado. Cabelos pintados com fios escrachadamente brancos perdidos pela cabeça. Calça de moleton, sapatinho moleca, blusa preta de algodão e uma bolsinha de tricô. Uma dessas senhoras que dá vontade de levar pra casa e fazer o café da tarde com torradas e as tão queridas geléias. E um bolo de cenoura com chocolate ou de laranja, aqueles da Dona Benta. Não sabia seu nome, nem onde morava, nem se tinha TV a cabo em casa, se tinha marido ou se gostava de romances. Daria todas as minhas compras, depois de paga, pra saber um pouco mais da vida daquela mulherzinha tão delicada. Desejei envelhecer assim, num mercado da Zona Sul, fazendo minhas próprias compras saudáveis e dormindo apenas cinco horas por dia; era o que parecia, porque embaixo dos seus olhos eram revelados uma pele mais escura, de quem tem insônia, de quem já passa dos sessenta e de quem vive tomando cafeína. Depois desisti da idéia. Talvez eu queira me tornar uma velhinha arrumada, que vive tomando chocolate-quente, indo a pizzarias, museus, churrascarias, cinemas e me entupindo de besteiras. Afinal, já não é mais possível ter um corpinho daqueles, então porque se preocupar? Bem, o fato é que eu admiro pessoas que caminham de manhã pela orla e que vivem a base de sucos de caqui, cenoura com laranja, beterraba, pepino e essas coisas meio exóticas pra suco. E, não sei o que me levou a essa conclusão, a minha senhora deveria ser assim. Deveria acordar todos os dias às cinco da manhã, tomar um café reforçado com as geléias de cassis, de morango, de laranja e de uva - com certeza sua despensa deveria ser cheia dessas, porque o primeiro item a passar pelo caixa foram os três potinhos da geléia de cassis -, tomar um banho bem quentinho com seus shampoos anti-queda, anti-caspa, anti-oleosidade, passar seus cremes anti-envelhecimento - eu não entendo essa loucura toda por continuar inteirona se é tão bonitinho ver o rosto e o resto do corpo enrugando como um maracujá. Maracujá não é uma fruta bonita e gostosa? Então. - e depois deveria colocar uma calça de lycra, um casaco cinza com o nome de alguma cidade dos Estados Unidos bordado na frente e um tênis da Adidas e ir pra Copacabana com o céu ainda de um azul meio escuro, os pássaros cantando, os comerciantes abrindo suas barraquinhas e ela lá, toda pomposa, cheirosa, vaidosa fazendo seus quarenta minutos de caminhada por dia. Depois deveria parar em uma das barraquinhas, pedir uma água de coco por dois e cinquenta e ficar mais meia hora vendo o sol mudando de posição e as piriguetes andando de biquini no calçadão. Ai na minha época... e devia se encher de nostalgia. Ou talvez estaria com seu marido relembrando os tempos em que eles iam à praia e como seu maiô preto de bolinhas era bonito e como não fazem mais coisas assim como antigamente. E poderia, talvez, comer num galeto qualquer ali perto com uma farofinha esperta, uma porção de batata-frita e aquele molhinho que me fugiu o nome agora. Talvez veria vale a pena ver de novo - porque sempre vale, eu acho. Não as novelas, mas os fatos bons da vida. Como eu queria poder gravar os momentos. A senhorinha também deveria querer, eu imaginei.
Passou todas as compras e eu fiquei na expectativa: dinheiro ou cartão? Dinheiro, pensei. Acertei. E se eu adivinhei essa, devo ter adivinhado todas as outras. A vovó era mesmo como eu havia criado. Ela saiu antes de mim. Mais três pessoas empatavam a minha saída. Na porta do supermercado, fiquei procurando, em vão, a pessoa que me distraiu naquela imensa fila. Nada. Perdi a minha senhorinha pra sempre.

Por Aline Macedo às 6:56 PM



2.6.08

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Seu coração doía e ela não sabia porquê. Amores não correspondidos. Espaço vazio entre os dedos. Decepções. Ausência de um alguém que não sabia quem. Ela gostava tanto desse alguém desconhecido que seu peito queimava como em febre. Tudo lá dentro fervia num vermelho pesado, como sangue pisado num machucado do joelho. Era algo tão forte que, do seu corpo, saía o cheiro do gostar por todos os
poros abertos no lugar do salgado suor. Era, talvez, assim julgava, saudades do que nunca teve. Como queria ter uma mão macia para entrelaçar pela manhã ou sentir nos cabelos penteando e afagando pela noite. Sentia falta desse ser que a fazia chorar toda -não lágrimas, mas essência de baunilha- vendo filmes mamão-com-açucar. Queria ter duas xícaras para dividir o café, que ficava mais gostoso com canela antes de ir para o trabalho. Queria ter uma cama de casal com um alguém deitado noite a dentro, esparramado, roubando o cobertor e a deixando trêmula por culpa do ar-condicionado. Queria sentir doer de raiva, de ciúmes, de impossibilidade de trancá-lo em casa para que ninguém o isse e o desejasse e o queresse assim como ela queria, esse alguém. E queria que doesse mais ainda o peito quando ele dissesse: pára de besteiras, elas são todas minhas amigas. E ela lembraria das amigas dos namorados das amigas, que depois de um tempo sempre descobriam serem mais do que isso que eles diziam, esses homens. Mas ainda assim doía essa falta de cumplicidade, de ouvido disposto a ouvir às três horas da manhã quando batesse uma dor de cabeça ou uma dor de consciência ou uma dor de planos para o futuro. Não queria mais o arder de não ter, mas o arder de ter com aquele medo sempre presente de até quando. Queria massagens nas tardes de sábado ou simplesmente que alguém segurasse sua bolsa enquanto ajeitava o salto alto do sapato. Alguém pra correr na areia com apostas de quem consegue entrar primeiro na água fria. Besteiras, cotidiano, rotina. Ela queria bombons no dia das mulheres, dia das namoradas, dia do aniversário e no natal. Queria bombons numa segunda-feira à noite, sem motivo algum. Talvez uma rosa vermelha, só porque é bem piegas e os homens não tem muita criatividade pra presentes. Queria até as brigas, aquelas em que ambos dizem as verdades dentro de acusações que depois desmentem dizendo que era só um ataque de raiva, falou sem pensar, mentira, esquece. E queria os beijos da reconciliação e a cama quente e molhada de suor do sexo sempre arrebatador depois daquelas palavras que feriam. Mas os dois acabam por esquecer, mesmo, e no dia seguinte a rotina, a louça, o café com duas xícaras e dois pires, o bombom, a massagem, a cena típica de ciúmes e todo esse pacote que as pessoas ganham quando impõe aquele título tão famoso a que se diz namorando. E como doía dizer pra si
mesma que era solteira e que esses sonhos ficariam só em mente até. Até de repente. Porque é sempre assim que esses alguéns chegam.

Por Aline Macedo às 12:45 AM



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Você lembra das constelações que me mostrou naquele sábado qualquer de março? Lembra da miríade tão bem marcadas e da chuva de estrelas que parecia cair sobre nós? Ah, bemzinho, hoje a lua está tão bonita, tão dona de suas filhinhas brilhantes que eu te peço que feche os olhos, onde que que você esteja, e pense em mim agora. Talvez o céu não esteja tão bonito assim noutros dias. Talvez esse seja o céu mais bonito de todo o mundo e eu queria tanto, mas tanto, tanto, tanto, contando todos esses pontinhos de luz, poder dividir esses momentos banais e fantásticos com você. Mas você está tão longe, porque você está longe, amor? Já que você voa tanto, voa até aqui, pra mim, pra podermos compartilhar dessa coisa louca que é amar.


Por Aline Macedo às 12:23 AM



31.5.08

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Sempre imaginei o dia que você viria, toda confiante e decidida, talvez mais decidida que confiante, mas viria. Diria balbuciando num sopro de bafo frio de hortelã que sim. Que queria. Que podíamos ver no que dá. Ou talvez só o silêncio, essa coisa meio chata; as frases ditas no olhar em letras prateadas e cintilantes. Pensando, pensando, pensando, aconteceu, num repente, como todas essas peças que prega o destino. Você veio toda linda, eu lembro, loira, que os ladrilhos lisos de limo se iluminaram. E as laranjas loucas lentas caíam levemente de vergonha. Pela sua beleza, sua confiança e, talvez até, pela sua decisão. Não foi exatamente como planejei porque você não disse nada nem com palavras nem com olhares. As respostas vieram com as mãos calmas no meu rosto trêmulo e com gestos que se acumulavam junto a música de fundo, tudo intenso até que nossas bocas se unissem, nossos corpos se conhecessem, você ficasse perpetuamente em mim e eu dormisse dentro de você. Acordei bem cedo com a intenção de te acordar bem tarde com um café-da-manhã digno de louras lindas. No seu lugar, um bilhete: sonho. só sonho.
Até hoje não sei em que labirintos e delírios me perdi.
Até hoje não sei se te tive ou se dormi...

Por Aline Macedo às 11:45 PM



26.5.08

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Eu só queria dizer que ela está por aqui, esta história, entre nós, entre todos os que me rodeiam, porque sabem, ou mesmo dentro de mim, claro, que me exponho facilmente principalmente pela manhã. E mesmo que eu não queira, está. Não poderia esquecer/apagar/deletar, mesmo que isso me fizesse bem, e não sei se faria, nunca sei nada de mim, quem dirá, então, sobre os fatos/atos que participo. É o costume, por isso. É ele que me prende a essa história. E até quando deito a noite ou à tarde depois do almoço quando tenho tempo - aos sábados e aos domingos, mas principalmente aos domingos porque eles são chatos e gosto de não passar o tempo fazendo besteiras, então durmo. E aí, sem controle, o sonho vem pequeno, um pontinho, um pontinho brilhante que desce e vira um clarão enorme de onde sai uma figura que, no começo, não consigo identificar, uma figura grande e bela - é sempre assim porque me acostumei a sonhar igual, então lembro que já vi estas feições, só não consigo adivinhar quem seja, e aí a claridade vai diminuindo e a sombra torna os traços mais reconhecíveis, eu vejo os dentes, um gargalhar meio expansivo efusivo extrovertido e tudo se encaixa como num quebra-cabeça e meu mau-humor some e esboço também uma pose feliz de quem vê o que queria ver e toda noite/tarde/dia que durmo é o mesmo sonho que me faz recordar a história que nunca passa.
Eu digo, digo, digo. Repito: passou. Como passa a estação. Uma hora as folhas caem mesmo. Uma hora a chuva passa, o frio vai embora e os casacos feitos de pluma ficam esquecidos no armário. Minto talvez para me enganar. Talvez para enganar os outros. Talvez só porque é poético dizer que o tempo cura as feridas. Mas aí num súbito tudo fica claro como no começo do sonho e ilumina minha loucura de achar que tudo não existiu e de que posso guardar na gaveta ou debaixo do travesseiro e trancar o quarto a chave e agora, sim, nada disso vai mais fazer parte da minha vida porque dói. E o momento de lucidez e luminosidade esclarece, como se falasse ao meu ouvido: cai na real, meu filho, por mais que você esconda os sentimentos, as lembranças, as recordações, essas coisinhas criam pernas e braços e chaves e rostos e saem do quarto fechado e te acham onde quer que você esteja. Aí eu choro noite a dentro quando tenho essa dor, que é a consciência, que pesa tão pesado que me esmaga inteirinho pela madrugada mais que as estrelas. E eu penso que podia simplesmente ignorar o fato, a historia e tudo que ainda não me propus a contar, embora tenha começado o meu discurso pra falar exatamente sobre isso. Mas eu não esqueço mesmo. Há coisa que não passam como a alegria que sinto o dia todo quando. Como a esperança de ganhar um abraço depois de. Ou simplesmente o formigar nas mãos enquanto espero somente uma. A historia é essa mesmo, é simples, tudo se resume a. E é porque ela me faz bem... Porque seu sorriso abre as janelas e deixa que saiam minhas magoas e a fumaça presa aqui dentro. E como vou esquecer essa face fase curtinha e eterna, se meu quarto é cheio desse ar cinza sufocante? Eu preciso ainda, e todos sabem – porque até quem não me conhece sabe – que apenas a lembrança do olhar e do gesto e da fala já deixa minha respiração limpa até. Até o próximo tímido bom dia quando cruza comigo distraída. E aí de novo. E agora a noite, chamo todos os meus amigos a minha casa e eles não param de fumar. Não que eu tenha parado com os cigarros, mas me limito a cinco ou seis por dia, o que dá, em media, uma hora com intervalos pequenos entre eles. Por pelo menos uma hora, os meus pensamentos não me causam sensação de dor. E agora todo o quarto, a sala e os cômodos estão cheios dessa fumaça desagradável que me sufoca e de angustia e do peso que me esmaga. Se não forem as lembranças, as recordações, a face e o sorriso, quem vai abrir as minhas janelas enquanto durmo, num pontinho pequenininho brilhante que vai crescendo e crescendo me livrando da apnéia?


Por Aline Macedo às 4:22 PM



23.5.08

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Olhos fundos que fazem supor uma noite mal dormida, cabelos desgrenhados que fazem supor o cansaço ao longo do dia, mas a voz imposta e serena como se nada disso fizesse influência alguma por dentro. As pessoas não deveriam pertencer as outras, ela estava tão linda com as suas humanidades... mas pertencem. Se ligam de uma forma especial, intrincada, como linhas grossas amarradas fazendo nós e depois caindo num laço que alivia as pressões, embelezando o relacionamento. Eu, de fora, tão afastada pelas vibrações das duas pessoas – que estavam separadas, porque ela estava sozinha, falante, encantadora -, só faço olhar, como num culto solitário, as qualidades de uma mulher que poderia ser livre – e, talvez, quem sabe...-, não fosse a aliança de ouro branco na mão esquerda de unhas escuras, que quebram mais que a minha esperança, mas o coração. É algo não como Romeu ou tristão. É tão almplo como Werther, os jovens sofrimentos onde a não-correspondência causa angústia, um aperto, uma tristeza sem remédios que arde com doer. Só posso mesmo olhar que, quando chego perto, perco a coragem e fico com as pernas a bambear. Apenas observo. Olhos seus largos passos enquanto não chega o desenlaçar dos laços.


Por Aline Macedo às 6:17 PM



18.5.08

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Na solidão medrosa do dia, pega o café, um cigarro, liga o rádio e espera. Espera uma visita marcada: Uma pequena comemoração para sei lá o que. Celebrar, talvez, o fato de se terem descoberto e se dado tão bem. Ou trocar figurinhas. Ou jogar conversa fora, tête-a-tête. Só pra gastar o tempo acompanhado. Marcaram assim, do nada, quase parecia brincadeira, aquela coisa: - vou passar na sua casa pra te fazer companhia. aí aquele risinho de lado e um - passa lá sim, ué, eu te mostro aquelas bandas que eu te disse, não sei, joga alguma coisa, tem baralho? mas agora ela esperava na cozinha, sentada, absorta em seus mais íntimos pensamentos que, por vezes, eram tão vagos quanto a casa vazia. Mas espera cedo. Havia marcado pertinho das dez e ainda eram seis horas, o sol indo embora na janela de madeira entre-aberta. Respira seu cigarro, sente seu pulmão encher e vai aos poucos brincando com a presença da fumaça, soltando ora pelas narinas, ora pela boca. Abre a janela e o céu avermelhado como se sofresse ou como se sentisse doer - e dói - a despedida inegável do dia para a chegada densa, escura e em algumas horas brilhante, da noite demorada. Mais um cigarro - ai meu futuro câncer-, mais um café - ai meu sono prejudicado - e outra música sem ais porque música sempre fazia mexer os pés, as mãos, a cintura, o corpo todo. Dessa vez, não. Mexia dentro só as reflexões esperançosas de um alguém que ainda espera. Ouve um barulho na sala e interrompe sua silenciosa conversa interna, aqueles famosos diálogos no interior. Telepatia. Será que ele sabia que já havia alguém a espera? Esboça um sorriso amarelado dos cigarros e um alívio no peito como se estivesse salvo daquela infinitude de vazios. Como se o seu mau humor desaparecesse apenas com a possibilidade de tê-lo bem pertinho por mais três, quatro, cinco horas e talvez fariam comidas juntos, beberiam um vinhozinho tinto ou talvez uma tequila porque faz tempo que ela não toma tequila e é sempre bom virar uma bebida acompanhada e sempre acompanhada é melhor mesmo, até pra lavar a louça no dia seguinte e guardar as latinhas de cerveja no lixo, conversando, relembrando poucos pedaços soltos e não cronológicos da noite anterior que se torna presente assim rapidamente, ainda mais quando a conversa anda, corre, chega a voar de tanto que se entendem as duas almas. Poderiam ver um filme desses romances americanos que a mocinha acaba ficando, logicamente, com o mocinho bonitinho loiro e quase forte, mas porque não? Estariam bem perto e qualquer coisa seria o suficiente para uní-los. Se aproxima da porta com os pés descalços e silenciosos para não espantar seu convidado. Era ele, só podia ser, o cheiro forte já invadia a casa pelas frestas das portas. Chega ao olho mágico e um arrepio passa calmamente, não sabe se de frio, de nervosismo ou se o corpo só queria mesmo aumentar a temperatura. Uma pose para ser reconhecida, uma boca se abrindo e cabelos espetadinhos molhados e ai shampoo de melancia, ela pensou assim distraída e nervosa.
Abre as portas não só da sua casa, mas de seus olhos castanhos, que agoram ficam límpidos e claros, abre as portas para tudo o que sonhou quando estava na cozinha, na cadeira, com os olhos no café quase acabado da caneca de porcelana. Se cumprimentam da forma mais amigável possível, dois beijinhos e aquele abraço que não dura três segundos e entraram.
Ele não era uma presença tão marcante assim, daqueles que atravessam a rua e causam acidentes de mulherzinhas no trânsito, mas tinha um quê de conhecimento, uma pitada de estilo e um pouco de mistério também, bem denso, que pesava como uma qualidade interessante. Tinha mãos bonitas, bem delineadas e de tamanho médio. Ela tinha escolhido a dedo a mão do cara. Nunca gostou de mãos grandes, daquelas que, abertas, envolvem todo o rosto. Nem das pequenininhas, que não fecham nem no peito. Eram assim as preferidas: do tamanho ideal. Ela já sorria sem motivo aparente, como se tivesse fumado um back antes de. Ele trazia consigo dois maços de carlton vermelho, uma coca-cola e uns petiscos. Ótimo, ela pensou, já não aguentava mais cigarros mentolados. Desenroscou a tampinha da coca e aquele tshhhh aaahhh sendo repetido pelos dois como se estivessem num concurso de sonoridade do movimento de abertura de uma garrafa pet. Pareciam duas crianças quando ficavam assim, perdidos nas palavras. Pareciam mesmo tão infantis quando se entendiam sem dizer coisa alguma, só com os movimentos, como se não conseguissem montar frases para coisas tão banais. Ela o convidou para a sala, é mais fresquinho, mas a cozinha deixava tudo tão íntimo, tão 'estou com você na minha casa, estamos tomando café e conversando carinhosamente, não é tão mágico?' mas ele disse só: aqui tá bom. Então tá. Ela não sabia o que ele sentia por estar ali, no cantinho todo alheio, arrumadinho cheio de cinzeiros pelas mesas. Ela sabia que sentia só alegria. Se estivesse sozinha, uma lágrima dessas safadas que nunca sabem a hora certa de parar, começaria a escorrer calmamente em forma de agradecimento ou para expulsar uma vontade reprimida qualquer. As horas iam passando sem que ela percebesse. Sem que ele percebesse também, porque era sempre bom estar ao lado de uma pessoa que tira sorrisos, canta tão bem e abraça de um jeito todo acolhedor. Os minutos pareciam segundos, e as horas pareciam minutos e se passasse uma semana poderia-se dizer que se passou apenas uma noite. Isso tudo porque voava, o tempo. Ou então, mesmo, aquela coisa de ser tão inebriante que só se quer estar mais perto.
Já era bem tarde e começaram a beber qualquer coisa dessas que ela havia planejado, mas acho que era vodka, porque ele trouxe também, além dos cigarros, da coca e do doritos, uma garrafa de smirnoff pra juntar com a coca com os cigarros e sem o doritos, porque comer bebendo parece que deixa a barriga estufada e ela, definitivamente, queria se sentir linda para.
Chega de rodeios, de histórias, de mãos que se esbarram sem querer no apertado apartamento. Resolveu, ela, investir em um olhar mais penetrante, um beijo assim na trave ou qualquer coisa que fosse uma certeza, um caminho, um ‘me olha, eu to aqui’ disfarçado entre sinais do corpo. E começou mexendo nos cabelos, chamando pra ouvir uma música mais calma, peraí que vou pegar os vinis lá no quarto, mas vamos pra sala, lá tem uma iluminação legal, podemos dançar juntos. Mas ta ficando tarde, eu não sei, talvez eu deva ir embora ou. E ela desanimava a cada investida não correspondida, mas ele queria tanto antes, parecia tão feliz ao lado dela. Mas e se...e se.... e ela se perguntava se não teria deixado de arrumar o cabelo ou teria alguma parte da blusa furada ou algo que a deixasse feia. e se perguntava se, de repente, talvez, deve ser, ele queria ser apenas um amigo, aquela pessoa especial a quem se pede conselhos, faz companhia, dá abraços toda hora, mas não, não pode ter um beijo sequer assim, na boca, como quem não quer nada ao som de wouldn’t it be nice.
Ela só queria colocar pra fora tudo aquilo que tentava esconder, jogar tudo na mesa, todas aquelas vontades, por mais que fosse incômodo, por mais que doesse, e dói mesmo, mas seria uma dor com satisfação e alívio. Uma vez ouvira uma amiga dizer que queria vomitar os pensamentos e achou a idéia de uma magnitude incrível. Ela queria também conseguir vomitar os sentimentos, fazer aquela força extrema pra que saísse tudo mastigado, tudo bem explicadinho e de uma vez só, rápido, para que fosse entendido logo. Só queria que ele aceitasse o sentimento e dissesse: é assim que me sinto. E depois viria aquela cena cheia de magia em que eles se olhariam, se tocariam e diriam coisas absurdamente fofas como se reconhecessem que esperaram tanto por aquele momento. Ele diria que escolheu até o perfume, a cor da cueca e o gel no cabelo. Ela diria que colocou as duas cadeiras na cozinha para que eles pudessem sentar bem perto e um banquinho pra que ela descansasse a perna e ele ficasse olhando vezenquando e tentando se conter pra que ela não percebesse que ele também. Que ele também queria mais que amizade, mas não. Não era isso que ela via nos seus olhos meio fechados e cansados e melancólicos, embora parecessem felizes, apesar de tudo. E o mau humor dela desaparecia, mas a lágrima safada que vem nas horas inconvenientes dava sinais de que viria, e veio. Uma lágrima de agradecimento, de tristeza e de sofrimento também, embora estivesse feliz, apesar de tudo, só pela presença. E continuou. Não disse mais nada sobre o nós, não deu um movimento em falso que tivesse interpretações duvidosas e resolveu aceitar a amizade e a falta de amor como algo bom. Doído, mas que dava alegrias. Afinal, só de estar ao lado dele já era motivo para os arrepios e os sorrisos sem motivos.







Por Aline Macedo às 9:26 PM



8.5.08

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O ônibus o vento e a cara pra fora da janela. Pensamentos. Ela pensa nelas insistentemente, mas não distingue faces, nomes, jeitos. A que tem medo de se entregar, a que tem medo que não se entreguem e a que tem um medo medo mesmo, aquele medo puro, sincero, solitário - não inocente -, mas talvez a certeza de que não, não vai dar certo, maduro, sozinho, simplesmente medo. E ela pensa em, talvez, escolher outras pessoas ou ser escolhida, o que é sempre melhor, e ter novas relações novos frios na barriga novos sabores e novas vontades. Na verdade a palavra é mudar, mudar, mudar. E dor. Porque sempre há dor quando existem mudanças. E mesmo que não existam, sempre há dor quando se pensa em mudanças. E dor no ônibus no vento nos cabelos levados pelo vento na cara pra fora da janela nos pensamentos delas e nos dela e. Dor, é sempre assim. E segue, ela, calma por fora, óculos escuros para escurecer os olhos opacos e esconder isso, sim, a que se chama falta de brilho no olhar. Segue, segue, até chegar ao ponto, o dela, que tantas vezes com elas com medo com perguntas sobrepostas sem respostas com estrelas no céu, ela. Ela dava as mãos e pensava que bom, deu certo, será, é, eu acho, e na dor. Porque ilusão é sempre dor também. E agora a menina queria mudar e nenhuma chance, esperança, quimera, segue só com o sol no ponto sem estrelas a caminho de casa sem elas e só, inteiramente só com aquele desejo aparentemente longe de realização de: mudar. E que elas, as outras, as tantas dos pensamentos sumam e dêem lugar a outras, talvez a outros, porque não tentar? ou uma coisa tão bonita inocente como, saudades
também, daqueles amores debutantes que duas ou três vezes fizeram parte da vida, conchinhas de madrugada, mãos nas costas e talvez só isso, nada de pornografias putarias piranhagens só o carinho. Algo novo com gosto de passado guardado na lembrança só pra renovar. Porque não se quer mais desgosto, mais angústia, mais insegurança. Nem sequer medo. Se quer ser correspondida. E é só. E é só que segue e muda até achar um alguém uma alguém ou qualquer coisa humana que se mecha e que tenha sentimentos e que possa ligar a noite pra dizer: Dor...me bem, meu bem.

Por Aline Macedo às 3:39 PM



4.5.08

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Eu estava do lado dela e podia sentir os fios de seus cabelos no meu ombro como se conversassem longamente sobre o ar-condicionado. Ela estava ao meu lado e podia sentir não só os seus fios de cabelo no meu ombro, mas uma coisa tão interior que se exteriorizava e que eu chamo de: vontade. Ela sentia isso comigo. E senti que ela sentia quando deitou a cabeça levemente nos meus ombros e cabeça cabelo ternura como se dissesse: eu sei. Sabíamos. E só isso me interessava na noite fria de um sábado qualquer entre tontos pela bebida, tontos pela falta de conhecimento e tontos de tolos mesmo. Eu também estava tonta, mas tonta por inseguraça. E se eu virasse mais a minha cabeça e tocasse calmamente meus lábios nos lábios cansados na face branca na pessoa que sabia o que eu queria? Insegurança nervosismo e o medo que meu coração batesse mais fote. Ai que tonto seria se ela sentisse não só as vontades, mas o disparar no meu peito, tão doze anos e primeito beijo. Menti que estava acostumada a situação, nos abraçamos. E encaixávamos. Os braços que se entrelaçam, sentados, e as pernas que se encostam e ainda a cabeça nos ombros, como dois corpos bem juntinhos só para aquecer. Sabíamos. Já era tarde e quase tarde demais para abraçarmos nossas intenções. Ou as minhas, quem sabe. Isso eu realmente não sabia: se ela sabia que eu não sabia se ela tinha vontades. Deixei-me levar pelas minhas e pelas horas e pelos tontos que saíam do ambiente gelado em que estávamos. Vamos. Já vou. E uma coragem dissimulada, eu disse: vou com você. Levantamo-nos e as mãos entrelaçadas, eu só precisava de um sinal. Há pessoas, como eu, acredite, que precisam daquilo que é chamado certeza para dar um passo a frente. Eu precisava. Como saberia? Eu nem tinha barba... Vou com você. Fomos na carona de um amigo. Fui na carona de meus pensamentos. Chegamos. Cheguei. Ela sabia o que viria. Eu sabia que ela estava consciente das minhas vontades e não hesitou. Respondemo-nos com um breve rápido dois segundos piscar de olhos ou menos beijo estalado nos lábios molhados de alguma bebida destilada. E era só oque faltava para completar a noite fria de sábado de abraços de mãos emaranhadas e pessoas tolas desinteressantes.

Por Aline Macedo às 5:36 PM



27.4.08

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A Avenida Rio Branco fervia com o sol de trinta e oito graus numa tarde que não prometia acontecimento bom algum. Já eram quase cinco horas e o expediente se encerrava com a vontade de sair correndo para o banho, que estava longe de chegar, já que o trânsito também estava fervendo. Caminhei com meus passos lentos entre pessoas que andavam mais lentamente ainda, comprando chocolates, bolsas, camisetas, cd's. Ouvindo músicas, fumando ou bebendo uma cervejinha na saída do Edifício Central, típico dia comum no centro da cidade.
Entre tantas pessoas desinteressantes, camelôs e transeuntes, a reconheci. Estava desnorteada com o calor, com a multidão e com o sinal, que já estava vermelho há quase três cansáveis e eternos minutos. Seu olhar se encontrou com o meu as cinco e meia da tarde. Sei porque meu celular desperta exatamente nesse horário para que eu não esqueça de tomar o remédio que o psiquiatra me receitou.
Foi automático, a música soou e nossos olhares se cruzaram de forma fulminante. Fulminante para mim. Ela, que parecia estar lembrando tudo o que aconteceu nos fins de semana do penúltimo mês, ficou aliviada quando os pedestres começaram a atravessar a rua e foi atrás deles como se fosse por costume. Acho que ela não me reconheceu porque mudei a cor do meu esmalte nessa semana. Ou porque meu cabelo está mais brilhoso. Ou porque meus cílios estão maiores. Ou talvez ela tenha se lembrado perfeitamente das músicas que ouvimos antes de dormir e tenha resolvido ir embora. Porque mulheres quando sentem que estão com as pernas tremendo e sem controle com o coração preferem fugir. Eu, que não sou de insistir na situação e nem de me esconder, deixei. Deixei que ela fosse pra casa e levasse todos os medos de estar na mão de alguém.


Por Aline Macedo às 5:08 PM



24.4.08

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E pergunto, depois de calada dez minutos, e a bebida? Tava barata ontem? E ela disse que de barata não tinha nada, nem aquelas pequenininhas que ficam na cozinha ou perto das moças que fazem drinks com as roupinhas coladinhas e pequenas só para fazer mais marmanjos comprarem, comprarem, comprarem. Estavam caras as cervejas, mas não deixei de beber por isso. Mais silêncio. Ficou bêbada então? Não, só saí do corpo por algumas horas, mas não que eu tenha ficado bêbada mesmo, só saí do corpo, viajei, me perdi nas nuvens do céu cinzento que já estava escurecendo, nas nuvens brancas da bochecha com a barba quase feita do Rogério. E uma súbita cólera me invadiu no momento. Será que eu teria também nuvens brancas no lugar de bochechas? e será que ela viajaria um dia com elas? comigo? com as partes expostas de um eu que se dá em tudo, sem que seja percebido? Dei um risinho de canto de boca:
- ah, o rogério.
- É, o Rogério.
- você não disse que ele estava lá.
- sim, Ele estava
- mas ele não merece letra maiúscula.
- Porque não?
- Porque porque porque...só você merece letras maiúsculas.
- suas bochechas são mais bonitas que nuvens

E me transformei num céu, todo cheio de clarões e com um sol todo reluzente.

- são como ursinhos de pelúcia.

Meu ciúmes foi aumentando, aumentando, aumentando.
Mas ursinhos de pelúcia são tocáveis. Já as nuvens...


Por Aline Macedo às 7:21 PM



21.4.08

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Ela precisava disso mais que qualquer pessoa, mais que qualquer coisa no mundo vasto das possibilidades. Teria de se libertar e não haveria momento mais oportuno que esse. Embriagada na solidão de dez ou vinte pessoas - perdera a capacidade de fazer contas, pensava em como poderia ter deixado caminhar-se àquele ponto que chegara. Acumularam - ou ela sozinha porque acumulava as histórias pelos dois - abraços esperados, beijos previstos pela quantidade de cerveja ou pela falta de luz nos quartos e bares e ruas desertas, conversas que não levam a lugar algum ou apenas a risadas não muito empolgadas e a sorrisos contidos.
Sabia desde o início. Sempre soube que ele não seria o amor de todos os dias, aquele amor constante, embora combinassem como havaiana e praia. Mas levava. Ele a fazia bem, porque não? Porque parar se quando os lábios se encontram, os olhos que se escondiam pelas pálpebras eram só luminosidade?
Mas chegara a hora em que os prazeres da noite se anulavam quando o dia amanhecia. Tinha tantos homens e tantas paixões e tantos desejos e tantas pessoas ainda em vista para mais beijos, mais noites, mais bilhetes no guardanapo, mais marcas de batom vermelho na
camisa, mas não. Desde que se conheceram, ele era o principal. The best I ever had, era o que ela dizia baixinho quando ele ia embora antes que ela pudesse impedi-lo. Ela não se apaixonava nunca pelas antigas frustrações amororas; não era paixão, não era amor e, como se eu pudesse dizer o que ela sente e pensa e acredita, nem tesão era: Empatia. Sentia-se perfeitamente bem quando entrelaçava suas mãos miúdas nas mãos firmes que ele tinha. Como nomear o sentimento, a sensação e o bem estar? Desnecessário também, ela sabia e era o que importava.
Mas chegara a hora. A espera nunca era compensada. As noites mal dormidas, as intenções de sonhos lúcidos, a dissimulação de algo que sempre esteve presente não fazia mais sentido. Pensou em uma forma de dizer a verdade. Que verdade? Gosto de você. Mas então foi fácil nomear? Gostar? Não era um simples gostar assim, envolvia tudo o que envolve a mais complexa relação. Falar pra ele que se sentia maravilhosamente bem ao seu lado seria como dar um tiro na própria cabeça. Talvez ele já soubesse. Omitir seria a opção. Omitiria e nunca
mais diria que faz frio e que seria ótimo que tivesse um casaco no momento só para que ele a abraçasse e aquele clima todo se desenvolvesse. Nunca mais daria aquele beijo na trave antes de ir embora para que ele pedisse que ela ficasse mais um pouco, só um pouquinho e eles acabassem novamente com as mãos juntinhas naquela cama quente que ele tinha.
Nem despedida iria acontecer, decidiu. Decidiu-se sem estar em seus braços, senão com certeza seria outro o rumo que a história tomaria. Decidiu nos braços de outro. Vou parar com essa coisa toda, cansei. Liberto-me. Decidiu e é o que lhes conto. Pode ser mentira, eu nunca saberia. Mas a convicção era tanta, a dor em que olhava os traços dele bem de perto imaginando que nunca mais estariam encostando narizes, trocando saliva ou querendo embriagar-se juntos. E foi o que ela fez nos outros dias. Deixou-se encostar nariz com outros, entrelaçar as mãos tão pequenas em outras mãos, trocar as mesmas salivas com salivas diferentes: experimentar. Era o que ela mais queria, e não haveria momento mais oportuno que esse. Definitivamente, libertar-se de algo que a fazia mal era o que ela precisava.
Afinal, não era ela a dona de si mesma?


Por Aline Macedo às 7:02 PM



18.4.08

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Era o último cigarro daquela sexta-feira odiosa no clima casa, coca-cola com gelo e limão, textos meio perdidos em papéis antigos em cima da escrivanhia, sem companhias, sem bebidas, sem música e sem paciência de pegar o telefone, discar oito números e ver se alguém desconhecido de voz bonita e vibrante estaria disposto ou disposta a vir aqui, trazer um vinhozinho, ouvir cazuza bem ao fundo vida louca vida vida breve já que eu não posso te levar e conversar sobre como nossas vidas combinam e deus porque não nos conhecemos antes, quero que você me leve ou talvez discar oito números conhecidos e chamar uma amiga, um amigo, um amante, um ex namorado, uma professora ou qualquer pessoa do círculo social que pudesse ao menos dizer que meus cabelos não estão tão grisalhos como eu imagino, que minha boca
continua bonita como na época em que eu era jovem, que meus traços lembram os traços marcados e marcantes da minha avó - não porque é um conhecido tão conhecido que conhece a minha família, mas porque um porta-retrato perdido com os papéis perdidos e antigos denunciaria o fato de que todos os nossos parentes são mesmo iguaiszinhos em sorriso, olhos, orelhas, fios espessos de cabelo na face levemente amarelada pela falta de sol, e porque não gostamos de sol mesmo?, pelo brilho na testa do constante suor vindo do nervosismo de seiláoque.
E então ele ou ela diria assim, do nada, quando eu estaria falando que a burguesia fede: mas você está mais bonita do que a última vez que eu a vi. E eu entraria em transe, sorriria de ladinho fingindo vergonha mesmo sabendo que era verdade porque os gens não enganam, eealmente minha família envelhece e fica com um brilho amadurecido e conquistador no fundo dos olhos brilhantes brilhosos brilha brilha estrelinha, eu diria assim meio perdida. E ele ou ela perguntaria: o que você disse? e eu novamente riria meio de lado, dessa vez para o lado esquerdo senão correria o risco dele ou dela achar que tenho um tique-nervoso cada vez que alguém me olha, e falaria: só estava cantando, me lembrando, pensando. Malditos gerúndios que não me largariam nem na presença de um conhecido que veio na sexta-feira calada e calma me fazer a tão esperada companhia. Se fosse um desconhecido seria mais fácil, eu poderia inventar mil teorias e dizer que adoro os ecritores russos principalmente Tolstoi e Tchevok, ele ou ela poderia dizer mas e Dostoievski, você não gosta? E eu não riria, minha voz ia ficando mudinha mudinha só li crime e castigo e ele ou ela poderia falar: vamos ler, eu trouxe os irmãos karamazovi. E antes que eu me esqueça, teria trago três maços de hollywood mentolado ou carlton mentolado ou LA de cereja ou qualquer merda dessa que possa dar algum sabor a sexta-feira atípica que eu poderia estar tendo (Vou estar transferindo a sua ligação) caso realmente tivesse alguém aqui comigo nesse quarto. Mas quarto bagunçado com roupas jogadas no chão, o copo de coca-cola vazio e, infelizmente, um último trago antes de me afundar nas frases perdidas nos papéis antigos da mesa antiga de uma garota antiga que chega quase a ser mulher quando está sozinha sem cigarros
sem bebida sem música e sem paciência de chamar alguém para dividir o dia doído.

Por Aline Macedo às 10:59 PM



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III


O problema não é com você, é comigo. É aquilo: você é a pessoa certa na hora errada. Estou muito focada no profissional, não posso me envolver. Sinto muito, gostaria que fosse diferente...quem sabe podemos tentar uma outra vez, um outro dia, quem sabe no inverno quando é melhor ter um corpo quentinho debaixo dos cobertores. Simples e velhas desculpas que já sabiam-se desculpas antes de serem velhas. É levantar a cabeça e apagar os fatos, os laços, as mágoas, as doces palavras. Fingir que não houve densidade no passado e fazer do futuro um mar de possibilidades. São velhos conselhos que já sabiam-se conselhos antes mesmo de serem velhos.
Eram duas meninas, o casal, e conheceram-se reclamando dos seus atuais relacionamentos. Conheceram-se assim, despretensiosamente, numa mesa de bar cheia de garrafas vazias, pessoas vazias e cinzeiros cheios de mortas cinzas, talvez parecidas com as pessoas de olhar perdido, e bitucas jogadas no chão.
Se deram bem logo de cara, deve ser aquela coisa toda do signo – que não me lembro bem agora, mas acho que eram o céu astral uma da outra, aquela coisa toda que parece não fazer sentido algum, mas sentiam -, ou da pele, ou de outras vidas ou sei lá. A mais bonitinha, loirinha, magrinha, e que, na verdade, não tinha jeito de diminutivo, não, mas como era a mais delicada, poderia ser chamada até de pequena ao lado da outra, que era, pra fazer juz ao famoso “os apostos se atraem”, grande, meio bruta, usava mochilas para sair a noite e pagava as contas no final do jantar. Deram-se bem e é o que importa. Não direi que apaixonaram-se, seria demais, ainda reclamavam a falta de atenção de atenção alheia, a falta de mensagens, a dor de amar a quem não está aí para tomar sorvete aos sábados a tarde. A bonitinha chama-se Thais. Ou Taís. Gabrielle nunca sabia muito bem a grafia. E talvez Tais nunca tenha aprendido mesmo se era Gabrielle ou Gabriella, já que só se chamavam por apelidos. Thais sempre gostou de ter todas as meninas aos seus pés, e depois saía a procura de mais, e mais, e mais. Brincava de dar cursos às amigas de como ter quem quisesse. Você tem que ter confiança em si. Se valorizar. Quando você mostra o seu valor, todos a sua volta começam a acreditar que você realmente vale a pena. É, Thais tinha uma auto-estima boa e isso fazia com que as pessoas se atraíssem por ela, o que aconteceu com a Gabriela, que ficou caladinha sem dizer a ninguém que já tinha começado a faiscar lá dentro do lado esquerdo aquela coisinha chamada vontades.
Saíram, então, num sábado qualquer para uma boate dessas de diversidade sexual, que tocam as musiquinhas pops do momento, cerveja barata, suor dividido, calor humano, passadas de mão nas partes íntimas de pessoas que nem sequer sabem o nome, cheiro da pele, álcool do sangue, fumaças invadindo as narinas e as famosas que a Gabrielle sentia: vontades. Thais estava mesmo na vontade de ter mais que conversinhas com a Cíntia, com a Ana, com a Bruna, com a Aline, ai meu deus amiga olha a Roberta que gracinha! E dividia isso com a Gabrielle, que corava o rosto todo ao ouvir as tais confissões e disse – pessoas que dizem frases essenciais no impulso são as que mais me impressionam: Mas eu quero você hoje.
E sabe quando todos os planos mudam rapidamente na cabeça e aquela confusão toda de sentimentos e a surpresa e o susto e a cerveja sendo derrubada de levinho e o corpo grudando na parede e as mãos que puxam o corpo para perto de si e o cheiro do cabelo cada vez mais próximo e o coração fazendo tumtumtum e o encostar das bochechas e a viradinha de alguns graus que elas dão bem devagarzinho como se o DJ tivesse colocado uma música lenta que combinasse perfeitamente – não, acho que devia ser um creu na velocidade cinco, mas elas não perceberam porque se isolaram no mundo entre 1 metro quadrado – e aquele frenesi todo e o nervosismo e a certeza e enfim, só os lábios eram concreto no momento.
Agora sim: apaixonaram-se. Ou melhor: Apaixonara-se.
E deram as mãos pra seguir uma estradinha curta com jantares pagos pela dona das mochilas, mensagens enviadas pela bonitinha e telefonemas feito por ambas a noite para dizer o básico: dorme bem, pensei em você.
Mas acabei de sair de um relacionamento duradouro, quero curtir, não posso ficar com uma pessoa só. Você me faz bem, sim, é ótimo estar com você, mas, mas mas mas... malditos mas que sempre atrapalham a felicidade. Minha ex namorada ligou, acho que vamos voltar, e agora? Tudo bem? Desculpa, não queria te magoar.
Como? Como assim? Mas estávamos tão bem. É, estávamos, mas eu tinha uma outra pessoa recente, te falei logo no início do nosso pequeno relacionamento.
Eu te espero.
O que você disse?
Eu te espero, linda. Não é fácil não pensar em você, é estranho. (Parafrasear Marisa Monte, Chico Buarque e Elis Regina eram um dos esportes preferidos de Tais. Thais. Essazinha bonitinha.)
Bem, seja como for, você é a pessoa certa na hora errada. Quem sabe um dia ainda não podemos... Não posso dizer com certeza se Thais esperou. O que seria esperar uma outra pessoa? Imagine se essa outra pessoa namorasse cinco anos, casasse, tivesse filhos. Estaria ainda esperando por algo que não se sabe que ainda terá? Seja como for, Tais esperou como deveria: se relacionando com poucas pessoas sem se apegar de verdade. Seus olhos ainda eram mares quando se deitava na escuridão do quarto. Um dia, a surpresa: solteira. Gabriella não tinha mais um alguém e Tais riu descontroladamente quando soube da notícia, que foi dada por telefone por uma amiga em comum. Riu, comprou flores, chocolates, uma roupa bem bonita e decidiu: é agora que fico com Gabrielle para sempre.
Gabriella ou Gabrielle tomava um banho quentinho quentinho pra esquecer os problemas quando ouviu tocar a campanhia naquele sétimo andar na segunda-feira de manhã antes de ir para o trabalho. Se enrolou na toalha, abaixou-se para o olho mágico e a surpresa: Thais. Thais e suas flores e seus chocolates e seu cabelo arrumado e sua roupa toda bonita elegante gracinha fofa. - Não é fácil não pensar em você...
Deu os mimos todos pra Gabrielle incluindo seu coração.
Mas não adiantam as desculpas de ex namorada, falta de dinheiro, tempo, os pais não deixam, eu estou confusa e etc etc etc. Adiar a verdade só torna maior o tombo das pessoas. E quando Gabrielle disse que não, que preferia só manter a amizade, que não teria nada além disso e que – sustentou – ela era a pessoa certa no momento errado, Tais sentiu-se caindo do sétimo andar daquele edifício cinza e frio, assim como a menina que morava lá.
Sobre a dor é difícil, embora passe.
Sobre o aprendizado é fácil: desculpas sempre serão meras desculpas.



Por Aline Macedo às 1:16 AM



16.4.08

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Abri os olhos por culpa do despertador. Por mim, ficaria horas e horas a mais sonhando com a minha viagem a Paris, as fotos na Champs-Élysées e a visita ao museu de Louvre só pra ver o sorrisinho da Monalisa. Ou pelo menos mais cinco minutinhos. Mas fui levada mesmo por aquela musiquinha da Britney do celular da minha irmã: acordei. Os olhos ainda estavam grudados, o corpo pesado e o cheiro de chuva invadia antes que eu pensasse em pôr os pés no chão. Aline, aline, acorda. Levantei mesmo sem querer e fiz todo aquele esquema diurno: café com um pedaço de bolo de laranja dormido, escovar os dentes, pegar o material, tomar banho, escolher a blusa que combine com o all star, acender um cigarro e sair andando na esperança de encontrar alguém superinteressante no caminho que salvaria a minha vida do tédio. Nunca encontro. Mas tenho certeza que só não encontrei hoje porque tinha um acidente em uma das ruas que beiram o campo de santana e, minha querida, impossível passar por aqui, e tive que ir por um outro caminho que, com certeza, não era o do tal garoto de estatura média, meio fortinho, moreno, cabelos espetados, barba a fazer e um carro. Claro, eu não poderia encontrá-lo andando ao meu lado, a cena clássica de esbarrar nos meus livros e depois pedir meu telefone porque isso seria clichê demais. Imagine, logo eu! E a chuva vinha clara escurecer minha roupa, os carros passavam e meus pés ensopados tentavam pular as poças para desviar de mais um mergulho sabe lá aonde. Em dias de chuva, sou levada. Não posso decidir quase passo algum. As pessoas me chamam, as poças fazem com que eu desvie, o despertador me carrega e sou influenciável ao extremo.
- Vamos tomar uma coca?
- Ah...
- Vamos, po.
- Aham.
Simples assim, uma breve insistida e largo todos os meus pseudo-planos do dia.
Pensei, logo que cheguei a faculdade: vou sair daqui correndo, chego em casa, tomo um banho, faço uma comidinha a la vovó e fico estudando a tarde inteira. E acham que consegui? Nada, culpa da maldita chuva e seus efeitos internos sobre minha autoridade comigo mesma.
- Vamos comer esfiha lá no-não-sei-onde-longe-para-cacete, quer ir?
- Ah, tenho prova amanhã, nem dá.
- Mesmo?
- Ah.. estudo a noite, né?
E lá fui eu contra o que tinha planejado.
Papo vai, papo vem, falei de assuntos que não devia, fumei cigarros demais e acabei tomando uma dosezinha de tequila. Só uma, amiga, vamo lá, só pra esquecer. Claro, fui mesmo. Pensei em ir embora logo, mas fui ficando, ficando, até que, quando estava tudo ótimo-legal-conversas-com-amigas-ai-o-bofe-não-me-quis-que-cor-eu-pinto-o-cabelo-tem-sujeira-no-meu-dente, uma das meninas decide ir embora. Estava chovendo, então fui. Não porque eu não goste de me molhar, mas é aquilo que eu já comentei, não tenho opinião em dias chuvosos.
Cheguei correndo em casa para ver as previsões climáticas para o dia seguinte: nuvens espessas ao longo do estado do Rio de Janeiro, sem pancadas de chuva e o Sol aparece na parte da tarde na cidade carioca. Mínima de 23º e máxima de 31º.
Respirei aliviada e imaginei o meu dia todinho comandado por mim. Ah, isso é que a vida!

Por Aline Macedo às 9:31 PM



31.3.08

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Eu sabia pelo que me falavam. E pelo que via: meus olhos são bons observadores. Tinha um porte auto-suficiente. Era o que eu pensava quando a olhava: não precisa de ninguém.
E ia doidinha ela com suas roupas largas, cabelos na cintura soltos lisos bagunçados com alguns fios arrepiados e chinelos que mais pareciam pantufas. Os olhos clarinhos, a pele branca que fica rosada com pouca exposição ao sol e, ainda assim, um rosto carrancudo, bravo, fechado. Acho que ela queria que os outros tivessem medo quando a olhassem, uma espécie de barreira que criava para não ter desaprovação ou pra, sabe-se-lá, se sentir superior aos meros mortais. Letradazinha que era, nunca achava graça verdadeira em manter amizade com outros quaisquer que vez ou outra diziam que seu rosto era bonito, devia se arrumar mais, passar uma maquiagem, quem sabe não podia ser modelo, porque não?
Passava pelas ruas com um cigarro -e de filtro amarelo, imagine- entre os dedos calejados e sem cor nas unhas, a não ser o amarelado típico de fumantes, e fumava vagarosamente como se todos os cigarros fumados fossem os últimos de sua vida. E talve fossem mesmo. Dizia, com a cara amarrada, que pararia de fumar em breve, no final do mês, quando teria menos dinheiro para sustentar o vício. - Aí aproveito, dois coelhos numa cajadada só.
Pois bem, chegamos aonde era a minha intenção: Esperávamos, um dia, em lugares distantes, na mesma fila de uma lanchonete cheia de gente dessas quaisquer onde o salgado acompanha o refresco e o refresco parece água com corante e o corante também falta no catchup, que é ralinho ralinho, assim como o cabelo descuidado da menina que era durona, antes de eu ouvir sair a voz naquele lugarzinho sujo em que nos encontrávamos naquele dia tal o qual conto agora.
- Me vê uma cerveja? Riu como se fosse uma piada para si só. Mas, sem graça, disse: brincaderira, moça, tá cedo, me dê só um suco de laranja. Disse com a voz delicada, suave, como se saísse de uma criança de cinco anos de idade, aquelas menininhas bobas que brincam de barbie e não aprenderam ainda como vieram ao mundo. Não tive medo, claro, tive pena - embora blablabla esse seja bláblá o pior sentimento que blábláblá. Eu já estava sentada e nenhuma outra cadeira havia com espaço para que ela pudesse sentar também. Minha única atitude foi levantar e dizer: senta aqui, bonita, que já estou de saída.
Olhou-me bem com uma profundidade quase que indescritível e deu aquele risinho envergonhado.
E pensei, sem levar em conta o que falavam, só com os meus olhos observadores que estupravam a pele rosada do sol, cadê a indiferência, Isadora, com esses olhinhos acanhados que me acompanham pedindo mais que atenção?

Por Aline Macedo às 4:33 PM